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11. IDENTIFICANDO OPORTUNIDADES PARA EMPREENDER

 Íntegra da Entrevista

Qual é o primeiro passo para se descobrir uma oportunidade?

Álvaro Mello: Acima de tudo, temos que avaliar as necessidades. Será que o negócio que eu desejo montar atende a uma necessidade, é uma tendência, satisfaz ou corrige uma deficiência? Responder isto com clareza evita pensar os negócios com base somente nas emoções e nos sonhos e traz o negócio para o plano da realidade.

Onde se encontram informações sobre o mercado?

P.C. Mauro: O mercado está cheio de oportunidades. O empreendedor é aquele que é capaz de primeiro olhar o mercado de fora como um todo e tentar identificar quais são as áreas no Brasil, na sua cidade, no seu bairro. Ele tem que analisar tendências. Setores que têm tendências de crescimento, logicamente vão apresentar oportunidades mais seguras de negócios. A gente sempre fala em pesquisa, e se começa a imaginar que tem que se contratar uma grande pesquisa. Não é nada disso, pesquisar assim é caro. Mas pesquisa é importantíssima para tudo o que se quer fazer. A pesquisa que a gente fala é pesquisar a concorrência no setor, pesquisar o mercado percorrendo a região, ver o que a concorrência faz e o que se pode fazer melhor do que ela. Isto é pesquisa. Você vai pesquisar pessoas, trocar idéias com os amigos, com os parentes, com os profissionais do mercado. Tudo isto vai lhe dar informações para você tomar decisões. Se for uma franquia, por exemplo, você deve consultar os outros franqueados e saber se naquele setor, naquela franquia, as pessoas estão bem sucedidas, quais as dificuldades que estão enfrentando etc. Isto é uma pesquisa, a partir dela vêm as informações e a partir dela você pode tomar uma decisão.

Como identificar um negócio que têm vida curta, um negócio bom hoje mas que pode fracassar amanhã?

Álvaro Mello: Isto é identificado principalmente nos produtos e serviços de moda. Já vimos surgir vários tipos de negócios que duraram um ano, dois anos, às vezes mais tempo. O que se verifica é que se tem que tomar muito cuidado nestes negócios. Se você vai investir no início, este investimento tem que vir logo. Não vai esperar pra depois quando vão aparecer vários concorrentes. Vamos dar alguns exemplos. As lambaterias surgiram em várias cidades do país e desapareceram rapidamente. Outro exemplo que ocorreu, principalmente no Estado de São Paulo, foram as corridas de Kart, em que se aluga o Kart. Isto já teve muito sucesso, existem algumas ainda. De qualquer forma, são produtos de vida curta. Muito cuidado com estes produtos de moda. Você pode até entrar, mas sabendo que vai ter que mudar quando começar a cair as vendas. Precisa ter uma capital para investir na mudança. Os empreendedores de sucesso que atuam na área do lazer sabem muito bem o momento em que têm que se retirar e investir em outro produto de moda, de sucesso.

É preciso que o produto seja inédito?

P.C. Mauro: Eu acho que o grande mercado é procurar o que já está aí e tentar inovar, melhorar. O risco é bem menor, e bem mais fácil porque você pode introduzir idéias novas em cima destes negócios. Fica mais fácil você obter parâmetros para ter a vantagem competitiva. Aí você pode tomar a decisão mais fácil, mais correta e menos arriscada. Muita gente fica procurando o negócio inédito porque não vai ter concorrência. Mas o fato de não ter concorrência também significa que o risco é maior para introduzir e testar este mercado. Ele pode ser tão inédito, que não tem mercado para ele.

Como eu descubro que sou um bom empreendedor num determinado negócios?

Álvaro Mello: O sucesso do negócio deriva de quem está à frente dele. Encontramos negócios bons, bem sucedidos, que foram muito mal sucedidos na mão de determinadas pessoas; assim como encontramos péssimos negócios que foram muito bem sucedidos na mão de pessoas com perfil adequado. Onde é que reside o segredo: é no negócio ou na pessoa, ou na oportunidade? A posição que os potenciais empreendedores têm em relação ao negócio é fundamental. O empreendedor é aquele que busca as oportunidades. Deve correr riscos, mas riscos calculados. Calculados no sentido de decisões deliberadas. Deve ser um bom planejador. Deve ser também perseverante porque são muitas as barreiras, principalmente no começo... Deve ter a rede de contatos porque são tantas as informações que a gente pode encontrar na nossa rede de relacionamentos. Tudo isto faz com que a busca de um negócio dependa desse perfil. Existem potenciais empreendedores para um determinado negócio: alguns têm uma grande quantidade de pontos fortes e outros têm grandes quantidades de pontos fracos em relação ao tipo de negócio.

A pessoa têm que estar identificada com o negócio que está montando, ela têm que ter experência naquilo ou não ?

P.C. Mauro: Depende muito do tamanho do negócio e da dedicação necessária. Se estamos falando de um pequeno negócio em que você vai dedicar-se o dia inteiro, se aquilo vai ser a sua vida, você tem que estar muito identificado. Se você não estiver identificado, vai ser mais difícil vencer os obstáculos, dedicar-se o suficiente. Se estamos falando de um empreendimento maior, em que você vai ter uma equipe para gerenciar, então você vai ser o investidor, a identificação neste caso não é tão fundamental. Gostaria de falar um pouco sobre esta questão do perfil do empreendedor. Eu acho que o empreendedor é aquele cuja vontade de vencer é maior do que o risco de perder tudo que ele vai investir. Empreendedor é aquele que vence obstáculos. Obstáculo você vai ter pelo resto de sua vida como empreendedor. Se você aprende a vencer obstáculos, você vai ser um bom empreendedor.

O Brasil é um bom país para novos empreendimentos?

Será que todas necessidades da nossa população estão satisfeitas? É claro que não. Temos carências, deficiências em saúde, educação, lazer, turismo, na própria indústria para alguns produtos. Temos tudo por fazer? Por que estão chegando tantas empresas de fora? Não somente as grandes que aparecem nos jornais, não somente as montadoras, as indústrias de capital de base. Em todos os segmentos estão vindo empresas de fora, franquias estrangeiras. Por que estão vindo para o Brasil? Porque é um mercado extremamente propício para o desenvolvimento de negócios.

É preciso que o empreendedor tenha um alto nível de escolaridade para dar certo?

Álvaro Mello: Os melhores, os mais conhecidos e famosos empresários do mundo, de modo geral, não surgiram das universidades. Não precisaram ter uma grande cultura. Muitas vezes, a gente fica nesta ansiedade de buscar informações e buscar informações porque se tem uma carência na capacidade de assumir riscos. Encontramos pessoas de baixas renda e escolaridade com características empreendedoras. Em Bangladesh tem um programa de referência mundial para empreendedores que as vezes precisam apenas de um fogão para desenvolver um negócio e ter sucesso. Um sucesso relativo, é claro, ele sobrevive e tem uma vida independente.

A franquia tem normalmente um alto custo. É melhor investir sozinho ou buscar uma franquia?

P.C.Mauro: Se você tem certeza, sente-se seguro para empreender sozinho e tem recursos suficientes, basta buscar as informações, se preparar, se capacitar, como já falamos, e ir em frente. Se você quer diminuir seu risco, ganhar tempo, a franquia imprimi maior velocidade porque queima uma série de etapas, mas vai pagar por isto. Se têm recursos para pagar a franquia, aí você toma a decisão.

Álvaro Mello: A franquia pode ser um processo de aprendizado para montar seu próprio negócio. Por exemplo, temos lido na imprensa sobre uma franquia na área de turismo que funciona em casa (homebased). Algumas pessoas que querem montar negócios na área de turismo, podem começar com uma franquia dessas e depois decidir se sai ou não. Essa decisão deve também estar baseada em quanto a pessoa quer ganhar. Quem quer montar um negócio próprio, deve ter muito claro o quanto quer ganhar.

P.C. Mauro: Eu complementaria perguntando quanto você está disposto a perder. O empreendedor pode ter prejuízo, as pessoas se esquecem disto. As pessoas sempre, na hora em que vão empreender, querem saber quanto vão ganhar e quando vão reaver seu capital. Mas elas têm que saber que podem perder. Então, deve-se separar um dinheiro e se perder, tudo bem. E aí voltar a ser empregado ou empreender em novo negócio. Tem que haver esta análise bem criteriosa. O franchise minimiza o risco, mas não elimina o risco. O que o franqueador desenvolveu é uma fórmula de sucesso, um negócio que é mais bem sucedido que a concorrência e ele vende esta franquia para os candidadtos no mercado. Ele busca pessoas que possam implantar este negócio do jeito que ele desenvolveu mas que devem vencer as dificuldades do mercado local. O franqueador ensina a pescar, mas não pesca pelo franqueado. O franqueador passa as informações da experiência bem sucedida que ele tem, mas o franqueado é quem vai aplicar isto no seu mercado. Ele é quem vai conquistar o mercado, vencer obstáculos do dia-a dia. O franqueado pode, inclusive, introduzir mudanças, inovar o negócio para o franqueador e para toda a rede. Hoje, o franqueado pode sugerir mudanças que podem ser significativas no negócio, inclusive em franquias grandes, de marcas internacionais, como o Mc Donald. O próprio Big Mac é criação de um franqueado. Um exemplo interessante é de um franqueado brasileiro que criou uma alternativa de uma unidade móvel em cima de uma carreta que desloca no verão para as praias, no inverno para Campos do Jordão, no Estado de São Paulo. Ele analisa os pontos comerciais e deixa a carreta lá por um determinado tempo. Esta é uma inovação fantástica em que o Mc Donald comprou a idéia e o franqueado tornou-se sócio do Mc Donald na idéia. Fala-se muito em learning organization e a franquia moderna é assim em que o franqueador absorve as inovações dos franqueados para melhorar toda a rede.

Fundação Vanzolini/ Projeto E