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10.
APRENDENDO A EMPREENDER
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Qualquer
pessoa pode empreender
hoje?
Kival
Chaves:
Desde que sejam adotadas
certas atitudes. Há
cinco pontos que podem
ser destacados. O primeiro,
é que o empreendedor
deve estar orientado para
negócio. O segundo
é que preciso buscar
construir algo significativo.
Em terceiro lugar está
a capacidade de assumir
riscos, de viver essa
inquietude de quem está
sempre se arriscando.
A componente de risco
está sempre presente
na atitude do empreendedor.
Ele não busca a
segurança. A pessoa
que busca a segurança
vai ser um empregado e
vai ser remunerada por
isso. O que diferencia
o empreendedor é
a capacidade de assumir
riscos, que é recompensada
pelo sucesso e pela capacidade
de absorver os insucessos.
A quarta característica
é a tenacidade,
ou seja, a capacidade
de buscar com determinação
aquilo que ela quer. A
quinta característica,
não é muito
presente na cultura brasileira,
é mais presente
na cultura norte-americana.
Aqui no Brasil não
se pode ter insucesso,
o insucesso te condena.
E o empreendedor tem que
conviver com isso, se
um empreendimento que
ele fez não foi
bem sucedido, ele se prepara
e empreende novamente.
Aquilo não o condena.
O eventual fracasso numa
primeira tentativa traz
infinitas lições
para o próximo
negócio. Deve ser
entendido como uma curva
de aprendizagem. Então
eu destacaria esses cinco
pontos assim: orientação
para negócios,
a busca de algo significativo,
a capacidade de assumir
riscos, a tenacidade para
não desistir, a
capacidade de lidar com
os fracassos.
É
preciso estudar muito?
Fernando
Dolabela:
O empreendimento nasce
pequeno. A grande arma
do empreendedor emergente
é a inovação.
Outra coisa importante
é a capacidade
que ele sente de mudar
o mundo. Ele tem que sentir
que ele tem essa capacidade.
Como o Kival Chaves disse,
o empreendedor assume
riscos moderados. Ele
assume riscos, mas procura
minimizar os riscos. Uma
coisa interessante é
que existem estudos que
dizem que todos nós
nascemos com a capacidade
para empreender. O ensino,
o processo de aculturação,
é que inibe essa
capacidade. Para minha
surpresa, nos Estados
Unidos eles têm
essa preocupação,
lá que é
o berço do empreendedorismo.
Há uma iniciativa
em Chicago, onde estão
trabalhando em jardim
de infância até
high schooll tentando
recuperar essas características
empreendedoras. Respondendo
a sua pergunta é
importante ter atitudes.
Nós estamos falando
de uma área que
o processo é decorrente
de um processo de ser.
Kival
Chaves:
O eventual insucesso deve
ser entendido como aprendizado.
Fernando
Dolabela:
O empreendedor encara
o insucesso como um erro
qualquer. Essa é
a maneira como ele aprende.
O insucesso é quando
ele faz, erra e não
aprende. A única
forma do empreendedor
aprender é fazendo.
Porque ele sempre trafega
no novo. Eu estou trabalhando
atualmente com dois conceitos
fundamentais. Um é
o de encubadora social.
Estou plenamente convencido
de que o fato da pessoa
ser capaz de empreender
depende da sua formação,
do seu comportamento,
da sua visão do
mundo, das suas atitudes.
Esse é fundamental.
Eu estou envolvido na
SOFTEX * com ensino de
empreendedorismo universitário.
Nós estamos querendo
mudar a face das universidades
brasileiras que secularmente
formam empregados. Nós
queremos que elas formem
empreendedores. Mas isso
não é suficiente,
os alunos já chegam
com uma cultura não-empreendedora,
com a síndrome
do emprego. Nós
precisamos começar
a atuar no Brasil mais
cedo. Eu costumo dizer
que é no ventre
materno. É um problema
cultural. Existem sociedades
mais empreendedoras que
outras. Regiões,
grupos étnicos,
bairros, cidades mais
empreendedoras que outras.
É um problema basicamente
cultural. O conhecimento
na área do empreendedorismo
é muito volátil,
fluido. Ele desaparece.
Ainda mais hoje com essa
rapidez. Aí entra
o segundo ponto, que é
o conhecimento do setor.
Essa é a história
da minha sobrinha, que
diz: Titio, eu quero abrir
um negócio, não
sei em que. Ela está
na estaca zero porque
para abrir um negócio,
seja ele uma carrocinha
de cachorro quente ou
seja uma empresa de bases
tecnológicas um
requisito fundamental
é o entendimento
do setor. Como se faz
o negócio. É
nessa hora que nossas
universidades se descuidam.
Elas ensinam muita tecnologia,
mas não ensinam
a dinâmica do negócio.
A visão do cliente,
a necessidade do cliente,
a transformação
dessa necessidade em especificação
técnica, e o atendimento
desse cliente, esse é
o fluxo do negócio.
Não há mais
lugar para o profissional
que domina apenas a tecnologia
do produto. Se ele conhece
só isso está
em maus lençóis.
Ele tem que conhecer o
setor para que ele possa
inovar. Ele tem que inovar.
Ele precisar ter um diferencial,
agregar um valor ao seu
produto. Um novo valor
para o cliente. Quem compra
está em busca de
economia, de inovação.
Kival
Chaves:
Você pode fazer
pesquisa em diversos níveis,
mais sofisticada, pode
contratar uma consultoria,
ou pode pesquisar na Internet,
se informar nas entidades
de classe, em publicações.
Mas você tem que
fazer uma análise
de mercado. Você
tem q fazer antes, senão
ninguém vai comprar,
e a culpa é sua.
Esse é um vício
técnico. Os profissionais
de software têm
a formação
inicial técnica.
Nesse caso, têm
que procurar um sócio
que responda pelas outras
partes, e fazer uma parceria.
Alguém da área
de finanças, alguém
de marketing. Dois ou
três sócios,
um é diretor técnico,
outro diretor financeiro
etc. E você já
tem três pessoas
que já cuidam de
3 dimensões. Se
cada um escrever uma folha
de papel sobre aquele
negócio, então
eles quase têm um
business
plan.
Fernando
Dolabela:
Você tocou num ponto
delicado. Compare, por
exemplo, uma grande panificadora
e o Bill Gates. O que
eles têm em comum:
um sabia fazer pão
e o outro sabia fazer
software. Nenhum dos dois
conhecia o mercado. Toda
nossa literatura é
voltada para grandes empresas.
Os livros falam para que
se contrate um consultor.
Essa não é
a realidade. Tanto Bill
Gates e o negociante da
padaria não contrataram
e tiveram sucesso. Mas,
milhares faliram. O que
eu digo para os meus alunos
é que o sujeito
pode e deve fazer a própria
pesquisa. É fundamental.
É preferível
entrevistar 20 clientes
em potencial do que nenhum.
Esse é o grau de
risco. No meu livro, que
eu me baseio num fato
real, a pessoa, empreendedora,
entrevistou 200 clientes,
só nos sábado,
porque trabalhava durante
a semana. É possível
isso. Os nossos colegas
administradores não
escrevem para empresas
emergentes. O pessoal
de marketing, com raríssimas
exceções,
não escreve para
empresas emergentes. O
pessoal de finanças
não escreve para
empresas emergentes. O
que quer o empreendedor
é vender. Ele não
quer saber finanças,
ele quer vender seu produto
ou serviço. Essa
é uma falha que
um programa como o do
Softex está preenchendo.
Dar instrumentos ao empreendedor
emergente para ele mesmo
fazer sua pesquisa. Sem
a pesquisa de mercado
não dá.
Como
é a formação
do empreendedor?
Fernando
Dolabela:
O ensino de empreendedorismo
foge dos padrões
clássicos, tradicionais,
de ensino. O empreendedor
aprende de forma diferente.
E o empreendedor é
diferente do gerente,
aquele se forma nas escolas
de administração.
Como é o currículo
básico dessa disciplina,
dessa metodologia que
criamos ( que aliás
tem características
inéditas no Brasil)?
O programa criado pela
SOFTEX é inédito
no mundo. Essa semente
está sendo implementada
em mais de 150 estabelecimentos
de ensino técnico
e superior no país.
Isso não tem similares
no mundo. O que nós
fazemos? Nós treinamos
professores que vão
ser multiplicadores desse
ensino. O que é
o conteúdo desse
programa? Qual é
a essência desse
programa? O aluno tem
que se conhecer. Porque
a empresa é a projeção,
uma exteriorização
do que se passa no interior
do indivíduo. Para
criar alguma coisa o aluno
tem que se conhecer. Ele
sempre trabalha sozinho.
Não transmissão
de conhecimento, lá
ninguém ensina
nada a ninguém,
o professor passa a ser
uma pessoa capaz de fazer
as perguntas adequadas.
Se eu sou uma pessoa negligente,
eu vou criar uma empresa
negligente. Se eu sou
uma pessoa pessimista,
eu crio uma empresa pessimista.
Eu tenho que me conhecer
para me precaver, me auxiliar
e me unir a pessoas que
possam contrabalançar
as minhas características.
Eu tenho que fazer um
processo visionário.
E ela nasce fundamentalmente
das características
pessoais. Se nós
fossemos três indivíduos
com a mesma formação,
da mesma região,
mesma idade e formássemos
cada um uma empresa, com
o mesmo objetivo, elas
seriam diferentes, pelas
características
pessoais de cada um. Depois
o ele faz um plano de
negócios, ele planeja
detalhadamente sua empresa.
O ponto central do curso:
quem são os professores?
São empreendedores
como o Kival Chaves, que
dão depoimentos
pessoais. Muito mais do
que a empresa, que funciona
como de fundo. Porque
o empreendedorismo é
algo que se aprende com
a convivência, são
valores sociais. As pesquisas
indicam que todo empreendedor
de sucesso tem algum modelo
importante na sua vida,
que é dentro do
círculo primário,
familiar, de amigos.
Kival
Chaves:
No caso do particular
do empresário de
software essa situação
ficava ainda mais perversa.
Estou falando da primeira
metade da década
de 90. Historicamente
no Brasil, para se conseguir
financiamento, os órgãos
financeiros exigem garantias.
E existia uma lenda de
que as empresas de software
não tinham garantias.
A mudança que houve
é que nós
mostramos que nós
tínhamos garantias
para dar. O sistema financeiro
é que não
estava preparado para
aceitar essas novas garantias.
Pegando como exemplo a
padaria. Se o dono da
padaria quer expandir
os negócios, criar
novos produtos, atingir
novos mercados, ele coloca
em garantia os fornos
dele, o prédio
da padaria, se for dele,
como garantia real. Qual
é o bem de produção
da empresa de software?
É o microcomputador.
E mesmo uma pessoa que
não seja da área,
sabe que este é
o um bem que deprecia
aceleradamente. Então
o banco não aceita.
O software é outro
bem. Tanto o software
que eu uso para produção,
quanto o software que
eu produzo. Mas como você
valora um software? Você
sabe colocar valor numa
casa, num carro novo.
Mas como colocar valor
no software que você
quer colocar no mercado?
O software é intangível.
Nenhum desses organismos,
no início da década
de 90, atribuía
valor a esses bens nem
aceitava como garantia.
Então ficava perverso,
porque o empresário
não tinha acesso
a financiamentos. Eu estava
diante desse problema.
Eu entrei numa linha da
FINEP. Eu tinha um projeto,
foi aprovado tecnicamente,
mas quando chegou na área
financeira ele parou por
falta de garantias. Eu
fui no SEBRAE conversar
com o diretor, Roberto
Reis, e contando essa
história da dificuldade
do empresário de
software. Ele então
foi até sua estante
e pegou sua tese de mestrado,
feita para o curso de
engenharia de produção
da COPPE da UFRJ , justamente
sobre estrutura de financiamento
da Espanha. Ou seja, em
outros países,
esse problema estava resolvido.
Quando não havia
garantias, era criado
um sistema que criava
seguro de crédito.
O SEBRAE montou um sistema
de crédito com
linha de até 150.000
com a FINEP, na área
de software. Hoje em dia
isso virou um negócio
para o SEBRAE. Há
linha de crédito
de valores muito mais
altos para empresas de
outras áreas, além
de software. No ano passado
a SOFTEX assinou uma outra
linha de crédito,
de valores mais elevados,
até 200.000 dólares,
para bolsões de
negócios junto
ao BNDES. É uma
operação
baseada em risco. O BDNES
participa do risco dessa
operação
junto com a empresa. Vou
explicar o que é
participar do risco. Se
o empreendimento tem uma
carência, e depois
se deve pagar em função
do sucesso. O principal
do empréstimo deve
sempre ser pago, em qualquer
caso. Se o empreendimento
for bem sucedido o BNDES
participa desse grau de
sucesso. O retorno do
investimento vem em função
do sucesso. O BNDES está
apostando no sucesso do
empreendimento.
Uma
boa idéia é
sinônimo de bom
negócio?
Fernando
Dolabela:
Uma idéia para
funcionar precisa ter
dois aspectos: ela depende
de quem está por
trás. Uma boa idéia
pode ser um bom negócio
para uma pessoa e não
ser para outra. Se aquele
empreendimento não
satisfaz aos valores pessoais,
ao jeito de viver, às
características
individuais, à
personalidade da pessoa,
ela não consegue
levar adiante. Voltemos
ao exemplo da padaria.
Você pode dizer
que é um bom negócio,
sem bebidas alcoólicas,
com freguesia todos os
dias comprando pão,
mas você se esquece
do sacrifício do
estilo de vida do padeiro.
Ele precisa renunciar
a várias coisas
para gerenciar aquilo.
Ele acorda às 3
da manhã, às
vezes tem que substituir
um dos empregados. Ou
seja, ele tem uma vida
muito sacrificada. Isso
tem que ser compatível
com um estilo de vida
que ele tem. Muitas pessoas
fecham negócios
por causa disso. Segundo
aspecto: ele precisa ter
o domínio tecnológico
daquilo. Ele precisa se
perguntar se tem conhecimento
do mercado o suficiente,
conhecimento do processo
para ter sucesso. Se nós
fizermos agora um brain
storm,
podemos ter excelente
idéias. E nenhuma
delas pode servir para
nenhum de nós e
pode servir para outra
pessoa.
Kival
Chaves:
Há um livro muito
importante, que eu recomendo,
chama-se "Classe
Mundial"**. O que
é um empreendimento
"classe mundial",
uma região "classe
mundial", uma empresa
"classe mundial".
Para você chegar
à classe mundial,
segundo a senhora Kanter
, existe um modelo, o
modelo de Kanter ou modelo
dos três "Cês".
Conceito, competência
e conexões. Conceito
está associado
à capacidade de
pensar, às idéias.
Essa é uma condição
necessária. Tem
que ter idéias,
mas isso não garante
o sucesso do empreendimento.
Quem tem essa capacidade
bem desenvolvida, de pensar,
de ter idéias,
são empresas que
investiram em empreendedorismo
e inovação.
Nessa cultura da inovação.
É nisso que se
tem que investir. Esse
é o primeiro C.
O segundo, competência,
é a capacidade
de fazer, executar a idéia.
Para ser bom em competência,
você tem que ser
bom em qualidade. Você
tem que investir em qualidade
de produto e de processo.
É o aprendizado
de melhorar seus processos
e melhorar seus produtos.
Fazer melhor. A outra
capacidade é a
capacidade de conectar,
de fazer conexões,
de negociar. Você
tem que investir em colaboração
e networking. Capacidade
de fazer parcerias, alianças,
é fundamental.
Como
é participar de
uma encubadora de software?
Fernando
Dolabela:
Você precisa ter
um plano de negócios,
através do qual
é feita a seleção.
O que é mais importante
para um plano de negócios,
tanto numa encubadora,
quanto para o capitalista
querer investir no seu
negócio? É
quem está por trás
do negócio, é
a capacidade de realização
da pessoa que está
por trás do negócio.
Não basta ter a
idéia, é
preciso poder realizá-la.
Na encubadora, o sujeito
tem que apresentar o plano
de negócios - business
plan
- em que esses três
"cês",
apontados pelo Kival,
são exauridos.
Existe uma comissão
de avaliação,
de alto nível técnico,
que escolhe aquele projeto,
aquela empresa, aquela
pessoa, aquele grupo de
pessoas para ser encubado.
Então eles se tornam
residentes.
*
SOFTEX - Sociedade Brasileira
para Promoção
da Exportação
de Software
**
Nota do editor: Kival
Chaves refere-se ao livro:
World Class: Thriving
Locally in the Global
Economy, de Rosabeth Moss
Kanter. O livro foi editado
no Brasil pela Editora
Campus com o título:
Classe Mundial - Uma Agenda
Para Gerenciar os Desafios
Globais. Você pode
ler uma entrevista com
a autora sobre os principais
conceitos abordados neste
livro em: http://www.janelan
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