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10. APRENDENDO A EMPREENDER

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O ensino de empreendedorismo no Brasil:
uma metodologia revolucionária

Fernando Celso Dolabela Chagas

Este texto descreve uma metodologia inédita para o ensino de empreendedorismo no segundo e terceiro graus, cuja construção e fundamentos permitem a disseminação em larga escala deste tipo de ensino. São os apresentados os resultados obtidos em projetos que utilizaram tal metodologia em diferentes níveis e contextos educacionais através dos quais o ensino de empreendedorismo já foi inserido em cerca de 100 instituições de ensino de todo o País, em um período de dois anos.

O contexto do ensino de empreendedorismo

A introdução de disciplinas de empreendedorismo tem um caráter revolucionário, já que acresce à vocação tradicional de formação de empregados e acadêmicos, aquela do empreendedorismo, mais adequada aos novos formatos das relações de trabalho decorrentes da restruturação da economia mundial neste final de século.

O ensino de empreendedorismo significa uma quebra de paradigmas na nossa tradição didática, uma vez que aborda o saber como conseqüência dos atributos do ser. Assim, na sala de aula, elementos como atitude, comportamento, emoção, sonho, individualidade, ganham vaga antes ocupada somente pelo saber. Pesquisas junto aos alunos demonstram, surpreendentemente, que eles consideram este ensino fundamental mesmo para aqueles que não pretendem abrir empresas, e cuja vocação é, por exemplo, para a área acadêmica. Tais resultados conduziram a indagações e análises sobre o conteúdo da formação profissional oferecido aos nossos alunos, frente às exigências do mercado. De fato, a realidade conceitual trabalhada em sala de aula difere da sua aplicação no mundo não teórico.

Por outro lado, levantamentos feitos juntos a empreendedores apontam que o conhecimento da tecnologia do produto pode representar algo entre 5 e 15% da solução global na empresa. Ou seja, os conhecimentos adquiridos em cursos de base tecnológica no Brasil (alguns do mesmo nível de equivalentes no primeiro mundo), contribuem com um baixo percentual na solução dos problemas a serem enfrentados na criação, desenvolvimento e venda de um produto. Esta conclusão conduz inevitavelmente a reflexões sobre os programas curriculares em todos níveis de ensino. No ensino do empreendedorismo são abordados conceitos que regem a realidade nas relações de trabalho: a emoção (nas empresas, o quociente emocional substitui o quociente intelectual), a ênfase no ego, a capacidade de convivência com a ambigüidade e incerteza, a aplicação no contexto dos conhecimentos, o desenvolvimento do processo visionário. Lida também com fatores de natureza cultural, (valores, atitudes, comportamentos, visão do mundo) determinantes do grau de empreendedorismo de uma região, de uma comunidade.

A disciplina prioriza o comportamento (o ser) em relação ao saber como um fim em si mesmo. Desta forma, o objetivo final da disciplina(1) não é instrumental. A proposta não é a transmissão de conhecimentos, mas o esforço no desenvolvimento de características pessoais necessárias ao empreendedor de sucesso. Não se visa a criação de empresas de sucesso, mas sim a formação de empreendedores de sucesso. Para estes últimos, o eventual fracasso da empresa é visto antes como um resultado, com o qual saberão aprender. A atividade de empreender, representada principalmente pela identificação e aproveitamento constante das oportunidades, faz parte da rotina do empreendedor.

Apesar de estar ainda em fase pré-paradigmática enquanto ciência, o empreendedorismo consegue propor conceitos que permitem a identificação de condições de sucesso na criação e gestão de negócios. Assim, o ensino nessa área fundamenta-se da análise de algumas características básicas, fundamentalmente comportamentais, encontradas no empreendedor de sucesso. A ênfase na construção de um perfil de empreendedor (perfil este que conduz a uma capacidade de aquisição pró-ativa de know-how), e não somente na aquisição de um estoque de conhecimentos, é ilustrada por uma pesquisa relatada por Timmons(2), em que capitalistas de riscos direcionados para empresas de base tecnológica, ao escolher empresas onde investir, dão prioridade absoluta para o empreendedor, relegando a um segundo nível a definição do produto e a sua viabilidade mercadológica, já que "se alguém tem um boa equipe, pode mudar o produto".

As questões centrais do ensino de empreendedorismo

Questões fundamentais, algumas configurando verdadeiros paradoxos, surgiram como desafio a uma proposta metodológica que pudesse equacioná-las. A primeira questão diz respeito a indagações sobre como e em que condições pode se verificar o ensino nesta área. O que ensinar? É possível ensinar alguém a se tornar empreendedor? Como fazê-lo? O empreendedor nasce pronto, é resultado de genes favoráveis? São indagações similares àquelas feitas em relação ao gerente, há 50 anos. Uma conclusão que decorre das pesquisas mostra que é possível aprender-se a ser empreendedor, mas certamente sob condições diferentes daquelas propostas pelo ensino tradicional.

A segunda questão emerge da discussão precedente e pode ser enunciada da seguinte forma: a universidade está capacitada a ensinar o empreendedorismo, considerando-se os seus métodos tradicionais de ensino, o estágio não estruturado do ramo do conhecimento, e ainda, levando em conta que o empreendimento na área de negócios não é prática dos nossos campi universitários?

A terceira questão refere-se ao perfil do professor desta disciplina. Qual o seu papel num programa didático em que o comportamento é o alvo maior, e em que o conhecimento não é transmitido pelo mestre, mas gerado pelos próprios alunos, no processo de elaboração da sua visão de empresa, na auto-avaliação do seu comportamento, na construção de seus métodos próprios de aprendizado, na forma pró-ativa de agir? Qual o papel do professor tradicional no seu mister de ensinar empreendedorismo, área em que as relações com o ambiente natural do empreendedor constituem a fonte essencial de conhecimento/aprendizado? Nesta área, a conexão do aluno com o mundo exterior à universidade precisa ser intensa e sem intermediários. O verdadeiro ambiente "acadêmico" do aluno-empreendedor é o mercado, onde se articulam forças produtivas, econômicas, sociais, políticas. Nesse contexto, o estoque de conhecimentos do qual o empreendedor necessita é altamente mutante e contingente. O saber confunde-se com a capacidade de percepção do comportamento do mercado concorrente, composto por conjuntos de pessoas cujas ações provocam a sua transformação constante que, por sua vez, é geradora do alvo que o empreendedor incansavelmente persegue: a oportunidade.

Como entender e abordar esta inversão do campus acadêmico? Como vencer o paradoxo do ensino pela universidade de um conhecimento que ela ainda não domina? Alguns pesquisadores acham que é possível aprender-se a ser empreendedor. Outros acham que é possível ensinar. A metodologia proposta para a disciplina aborda o problema de forma pragmática. Enquanto tais questões são discutidas no meio acadêmico, há, em todo o mundo, uma febre de criação de empresas e de ensino de empreendedorismo. (3)

Se a universidade, por seus objetivos e missão, não empreende na área de negócios, a metodologia proposta responde convidando empresários a assumirem o papel de mestres, lado a lado com o professor. Se os elementos essenciais ao empreendedor são a sua capacidade de criar, definir a partir do indefinido, de aprender constantemente a partir da ação, enfatizam-se no curso características comportamentais de criatividade, do pensamento difuso, da parceria definitiva dos dois lados do cérebro, do conhecimento autônomo, pró-ativo, do aprender a aprender. Se o importante neste campo é antes ser do que saber, invertem-se os papéis entre professores e alunos, como inverte-se o fluxo do saber. Os alunos são os agentes de geração de um conhecimento individualizado, da adoção de comportamentos adequados à realização da sua visão.

Os pressupostos da formação do empreendedor baseiam-se mais em fatores motivadores e habilidades comportamentais do que em um conteúdo puramente instrumental. Esta característica irá provocar, como se verá mais tarde, mudanças radicais na abordagem educacional, tanto em termos de orientação profissional, uma vez que as nossas universidades estão mais voltadas para a formação do empregado de grandes empresas, como no que diz respeito à própria metodologia de ensino, já que no campo de criação de empresas o objetivo não é a transferência de conhecimentos, mas a geração de conhecimentos pelo ator do processo, o aluno. Portanto, os papéis do professor e do aluno são transformados: aquele é somente um agente indutor do processo de auto-aprendizado pelo aluno, cuja tarefa é o desenvolvimento de habilidades comportamentais inspiradas na própria bagagem (formação) existencial/psicológica. O saber específico, instrumental, é conseqüência da forma de ser, da atitude diante dos objetivos de se criar um negócio. A empresa é uma projeção e extensão do próprio ego.

No que diz respeito ao ensino de empreendedorismo a questão é resolvida, mais uma vez, de forma pragmática. Experiências de sucesso, em todos os níveis de ensino (inclusive do primeiro grau)(4), têm sido realizadas em todo o mundo. Sabe-se que fatores fundamentais para o desenvolvimento do espírito empreendedor apoiam-se, entre outros, em elementos tais como a motivação à auto-realização, iniciativa e persistência, energia, liderança, capacidade de desenvolver uma visão(5) (idéia de empresa), suportada por uma rede de relações pessoais.

A metodologia proposta para o ensino de empreendedorismo

Desafios

O maior desafio na elaboração da proposta metodológica para a disciplina foi representado pela necessidade da proposição de soluções para as questões fundamentais citadas, em síntese:

  • É possível alguém tornar-se empreendedor, ou ele é fruto de genes favoráveis?
  • É possível ensinar o empreendedorismo?
  • Como ensinar empreendedorismo?

Outros desafios, estes peculiares aos objetivos de disseminação, foram acrescidos aos obstáculos tradicionais.

  • Como ensinar empreendedorismo na universidade?
  • Como conseguir que a disseminação da disciplina se dê através de professores com diferentes formações acadêmicas?
  • Como induzir à criação deste tipo de ensino de fora para dentro das instituições de ensino, já que estamos falando de programas de disseminação do ensino?

O elementos centrais

Motivação para empreender

Um dos objetivos centrais da disciplina é despertar o aluno para a área de empreendedorismo, motivando-o a criar a sua empresa ou a gerar o próprio emprego. Isto não significa que a metodologia pretenda que o aluno abra o próprio negócio logo após a disciplina. Na verdade, este seria um resultado surpreendente. O que se pretende é que o aluno possa incorporar ao seu potencial a opção de geração do auto-emprego e q ue persiga tal objetivo durante a sua evolução profissional. Quando ele ou ela irá abrir o seu próprio negócio será uma questão pessoal, de amadurecimento, aprendizagem, desenvolvimento da sua visão, percepção e capacidade de aproveitamento de uma oportunidade. Há empreendedores que deliberadamente procuram empregos na sua área de interesse visando a formação de uma bagagem (em termos de conhecimento técnicos, mercadológicos, de relações) para a abertura posterior do próprio negócio. Os critérios de avaliação da disciplina pressupõem uma temporalidade que extrapola o ciclo escolar. O que esta avaliação irá buscar será quanto o direcionamento profissional do ex-aluno terá sido influenciado pela disciplina. Não há receitas nem limites de idade para a abertura do próprio negócio.

O processo visionário

Segundo Filion, o empreendedor é visto como alguém que imagina, desenvolve e realiza visões(6). O desenvolvimento da visão é um dos fundamentos do curso. O aluno é chamado a desenvolver o próprio processo visionário, cujo resultado é a empresa, e a exercitar a sua capacidade de projeção no futuro, através de exercícios visionários.(7)

Três categorias de visão

Os 4 elementos descritos por Filion, que suportam e interagem dinamicamente entre si, são trabalhados em sala de aula, através de exercícios. Eles compõem os elementos de base para o processo de modelagem, que consiste na captura, de forma estruturada, das experiências de empreendedores narradas em sala de aula.

O processo visionário

Comportamento empreendedor

As principais características comportamentais dos empreendedores, descritas em relatórios de pesquisas(8) são apresentadas e discutidas com o alunos. Este módulo, agregado ao processo visionário, o qual complementa, compõem o arcabouço teórico/conceitual do curso. Como se verá adiante, o perfil do empreendedor será confrontado com o depoimento de experiências reais, tanto nos depoimentos, como na entrevista e nas intervenções do "padrinho". São enfatizadas as habilidades requeridas em termos de know why (atitudes, motivação, valores), know how (conhecimento), know who (relações), know when (oportunidade), know what (o negócio).

Criatividade

A criatividade compreende o ciclo cujas etapas são a descoberta, a invenção, a inovação, a melhoria e o processo de mudanças.(9) A criatividade é fundamental para a identificação de novos paradigmas que poderão configurar uma oportunidade de negócio. Exercícios de criatividade são propostos e os alunos são convidados a expor a abordagem de Oech(10), de quebra dos bloqueios mentais que inibem a criatividade.

Capacidade de identificação, análise e aproveitamento de oportunidades

É preciso lembrar que idéias não são necessariamente oportunidades, mesmo reconhecendo-se que sempre uma oportunidade seja fruto de uma idéia. Existem idéias em número muito maior do que boas oportunidades de negócios. Uma das características da oportunidade é que ela deve se adequar ao perfil e características do empreendedor. Assim, uma idéia pode ser uma excelente oportunidade para um determinado empreendedor enquanto que, para outro, por variados motivos (que vão desde a competência, aptidão, disponibilidade, vocação, interesse, recursos de capital, etc.), pode não representar um negócio. Normalmente as novas oportunidades surgem de mudanças na economia, nos hábitos e perfil da população, em avanços tecnológicos, nas circunstâncias, nas inconsistências do mercado. Ela é traduzida em um produto ou serviço que adicione valor ao seu consumidor. Deve ser atraente e com um ciclo de vida que permita um retorno satisfatório. A melhor idéia nem sempre faz a diferença crítica do sucesso.(11)

"Plano de Negócios": instrumento de estudo de viabilidade e minimização dos riscos

O "Plano de Negócios"(PN) é o trabalho do curso. É um exercício de planejamento da criação de um empreendimento. Para ter validade, deve ser desenvolvido em bases realísticas: um PN bem feito deverá estar em condições de ser implantado, de se transformar em uma "empresa incubada", de sensibilizar parceiros e investidores. Na elaboração do seu Plano, o empreendedor poderá descobrir que o empreendimento é irreal, que existem obstáculos jurídicos ou legais intransponíveis, que os riscos são incontroláveis, ou que a rentabilidade é aleatória ou insuficiente para garantir a sobrevivência da empresa ou do novo negócio. Existe mais de um caminho para se chegar ao mesmo objetivo e mais de uma solução para os diferentes problemas. É melhor fazer uma escolha que garanta sucesso a longo prazo do que escolher a solução mais imediatista de sucesso aparente. O PN pode também conduzir à conclusão que o empreendimento deva ser adiado ou suspenso por apresentar baixo potencial de sucesso.

A abordagem didática

Enterprise way

A metodologia de ensino utilizada nesta disciplina é inspirada nos processos de aprendizagem utilizados pelo empreendedor na vida real. Para se encontrar efetividade didática na área de empreendedorismo é essencial que o ensino seja insistentemente inserido no contexto. Deve-se submeter o aluno pré-empreendedor a situações similares àquelas em que encontrará na prática. O processo de aprendizagem do empreendedor, na pequena empresa, é essencialmente baseado em ações. Segundo Allan Gibb, (1992) ele aprende da seguinte forma:

solucionando problemas; fazendo sob pressão; interagindo com os pares e outras pessoas; através de trocas com o ambiente; aproveitando oportunidades; copiando outros empreendedores; pelos próprios erros: é uma área em que se podem cometer erros(pequenos) porque há liberdade; através do feedback dos clientes.

O propósito do curso é fazer com que os alunos freqüentemente cruzem os muros da escola para entenderem o funcionamento do mercado, e estando em sala de aula, submetê-los a processos de trabalho semelhantes àqueles desenvolvidos pelos empreendedores. Essa metodologia é chamada de enterprise way. A teoria é preferencialmente abordada através de sua aplicação à realidade, privilegiando as características do mercado e da economia locais. A abordagem didática fará uso de casos, jogos, estudos de biografias, teatro popular. A forma de seminário será priorizada em relação à exposição teórica. Deve-se induzir o aluno a um grau elevado de "exposição" durante o curso, de forma a prepará-lo para situações de negociação. Assim, é importante que os papéis do professor e do aluno sejam intencionalmente invertidos: o aluno é sempre chamado a transmitir para toda a turma os conhecimentos que ele próprio gerou: a sua idéia de empresa, a definição do seu produto, a sua visão do mercado, o seu plano de negócios. A capacidade de crítica, isenta e objetiva, é estimulada junto aos alunos, que se transformam em avaliadores dos colegas. Assim, o primeiro "teste" da empresa do aluno e do produto será feito em sala de aula: os seus pares assumem as funções de clientes, fornecedores, financiadores, sócios.

Depoimentos de empreendedores

Empreendedores são chamados a comparecer à sala de aula para falarem sobre sua experiência na área de negócios, abordando, principalmente, os aspectos pessoais do seu envolvimento. Grande importância é dada ao depoimento de empreendedores, cuja vivência na área irá ser um dos componentes didáticos mais valiosos já que é indispensável ao aluno-empreendedor conhecer os caminhos percorridos por aqueles que alcançaram o sucesso e também por aqueles que amargaram fracassos. O depoimento é imprescindível à formação e/ou enriquecimento da visão do aluno no que diz respeito ao perfil do empreendedor e àquilo que se entende como empreendimento. Deve-se escolher um empreendedor que tenha criado o próprio negócio, uma vez que o conteúdo a ser transmitido é justamente a formação da visão, a idéia da empresa, do primeiro produto, do primeiro cliente, da abordagem do mercado, da passagem de um estado de não empreendimento para a criação do próprio negócio. É muito importante o relato da transformação na vida pessoal: as novas relações pessoais, a reação do núcleo familiar, os rendimentos incertos na empresa. Devem ser destacadas as relações de interdependência com o ambiente interno e externo: colaboradores, empregados, clientes, fornecedores, concorrência, sócios. Para possibilitar que os depoimentos sejam capturados e percebidos de forma estruturada, no sentido de que uma estrutura comum permite a análise e comparação, criou-se uma metodologia específica para a absorção dos conteúdo dos depoimentos.

Tal metodologia utiliza duas ferramentas:

um roteiro para o depoente, que sugere um curso de informações voltadas para o conteúdo do curso. São privilegiados os dados sobre a pessoa e o que ela faz, em contraposição à abordagem tradicional do ensino da administração, que visa o que é feito e como é feito.

Guia de modelagem, para o aluno extrair estruturadamente dos depoimentos dos empresários aquilo que for essencial. Ele se coloca na posição do empreendedor e tenta absorver a essência de comportamentos, atitudes, práticas que podem ser incorporadas à sua forma empreendedora de agir.

A prática tem demonstrado que depoimentos sobre situações que ensejaram fracassos empresariais são extremamente ricos, devido à possibilidade de identificação de causas objetivas que provocaram o insucesso.

Julgamento dos "Planos de Negócios": O Júri.

Após o final do curso será criado um Júri, integrado por pessoas representativas da área empresarial, para avaliar as melhores "empresas". O Júri avaliará o trabalho final da disciplina, o planejamento total de uma empresa, feito através do Plano de Negócios. O objetivo do Júri é integrar o novo empreendedor à comunidade de negócios. Não basta estimular a criação de empresas. É preciso convocar as forças sociais para apoiarem o novo empreendedor e exclui-lo das estatísticas de mortalidade infantil nesta área.

O "padrinho"

É importante que a rede de relações do novo empreendedor o auxilie desde o momento em que planeja a sua empresa . Um passo nesse sentido é a escolha de um "padrinho", um empresário experiente, de quem possa extrair conselhos e orientações. Não é necessário que seja do mesmo ramo, o que importa é a vivência no campo da criação de novos negócios. O "padrinho" atuará como um conselheiro durante todo o processo de concepção e elaboração do "Plano de Negócios". Não deve funcionar como uma instância "solucionadora de problemas", mas como alguém que possa auxiliar na formulação das perguntas corretas.

O Perfil do professor-instrutor O professor visto como o "Organizador da Oficina do Empreendedor" (figura 1)

O instrutor assume o papel de organizador do processo de aprendizagem. Não se coloca na pele de um especialista, mesmo porque não há uma "versão certa". Ele não deve assumir a posição do professor tradicional, no sentido de ser uma fonte de todos os conhecimentos de que trata a disciplina. Ele precisa manter, além dos vínculos acadêmicos, uma proximidade com o ambiente empresarial e político-econômico (sistemas de suporte) e trazer o seu network para a sala de aula. Sob este prisma, as funções do instrutor são vistas principalmente como um elo de ligação do aluno com o mundo empresarial. Deve ter também uma visão multidisciplinar, agregando especialistas em torno da disciplina, e criando um ambiente em que seja possível o conhecimento através da ação, uma vez que o aluno deve aprender como o empreendedor aprende, de forma pró-ativa. A relação professor-aluno é vista de outro ângulo: o ator principal é o futuro empresário. A figura do padrinho, criada pela metodologia, servirá de complemento ao papel do instrutor.

Os resultados da aplicação da metodologia.

Resultados no Departamento de Ciência da Computação da UFMG.

A disciplina "O Empreendedor em Informática" é oferecida uma vez por ano no Departamento de Ciência da Computação da UFMG. Desde 1993, após 5 semestre letivos, os resultados foram:

  • 40 empresas "acadêmicas" (criadas em salas de aula)
  • Cerca de 100 alunos envolvidos na atividade de empreendedorismo.

Resultados dos programas de disseminação da disciplina

A metodologia de disseminação em larga escala do ensino de empreendedorismo utiliza-se dos seguintes ações para a sua realização.

  • Programa de sensibilização dos corpos discente e docente
  • Mobilização das instituições para adesão aos Programas de Disseminação
  • Treinamento dos professores através do Workshop Training The Trainers
  • Oferecimento de material didático completo
  • Criação de rede de ensino, integrando os participantes
  • Avaliação dos resultados da disciplina
  • Acompanhamento dos ex-alunos

Resultados do Projeto SoftStart

Após os períodos de teste da disciplina, percebeu-se a necessidade de adoção de uma política efetiva de sensibilização e estimulo à sua implementação em cursos de graduação de informática, em termos nacionais. Com este objetivo, entre outros, foi criado o Projeto SoftStart no início de 1996. O contexto indicava que a disciplina criada em 1993, apesar de ter sido relativamente divulgada no âmbito do SoftEx, ainda não havia sido adotada pela maioria das universidades. Duas necessidades básicas foram percebidas e constituíram-se no pressuposto estratégico de ação do SoftStart:

  • A sensibilização das universidades para a necessidade da disciplina,
  • A criação de condições para o oferecimento da disciplina pelas instituições que o desejassem,

Em ação conjunta com o Projeto Gênesis, que estimula a criação de pré-incubadoras no âmbito dos cursos de graduação e mestrado, o SoftStart noa seus 30 meses de existência, atingiu o impressionante número de 96(13) instituições de ensino técnico e universitário envolvidos com o ensino de empreendedorismo na área de informática.

Resultados do Programa REUNE(14)

Criado em 1997, o Programa REUNE, Rede de Ensino Universitário de Empreendedorismo, tem por objetivo a disseminação do ensino de empreendedorismo nas instituições de segundo e terceiro graus do Estado de Minas Gerais. Em seu segundo ano de atuação, o REUNE já ganhou a adesão de 32 instituições.(15)

O Programa SEI - de ensino de empreendedorismo SENAI-IEL -MG

Por iniciativa do IEL e do SENAI, ambos do Sistema FIEMG, Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais, o ensino de empreendedorismo está sendo implantado nos cursos profissionalizantes do SENAI-MG. Iniciado em Maio de 1998, cerca de 70 professores de todo o Estado de Minas Gerais já participaram de 2 Workshops de Formação de Formadores visando a implementação do ensino de empreendedorismo a partir de agosto de 1998.

Bibliografia

1. Filion, L.J., Visão e relações: elementos para um metamodelo da atividade empreendedora - International Small Business Journal, 1991-

2. Filion, L.J., O planejamento do seu sistema de aprendizagem empresarial: Identifique uma visão e avalie o seu sistema de relações - Revista de Administração de E mpresas, FGV, São Paulo, jul/set.1991, pag.31(3): 63-71.

3. Filion, L.J., Vision et relations: Clefs du succès de l'entrepreneur - Les Éditions de l'Entrepreneur, Montreal, Canada, 1991.

4. Timmons, J.A., New venture creation, Homewood IL:IRWIN, 1990

5. Oech, R., Um "toc" na cuca, Livraria Cultura Editora, Rio de Janeiro, 1988

6. Gibb,A.A., Enterprise culture-its meaning and implications for education in training, Journal of European na Industrial Training, Monograph, Vol. 11, N º 2, 1991

7. Garcia, Fernando Coutinho. Neoliberalismo, Controle de Qualidade Total e Reengenharia: Instrumentos para o Desemprego e a Miséria Social. Revista Brasileira de Administração Contemporânea. Rio de Janeiro: ANPAD,1995.p.29-48.

8. Fortune, 12 de junho de 1993, 46-47 p.

9. Varela, R., Lozano, M., "Espiritu empresarial en la educacion primaria; la experiencia del C.D.E.E.", V congresso Latinoamericano sobre espiritu empresarial, Santiago do Chile, 1991

10. P.A. Schumann, Jr., Austin Creativity: "Key to the future", Technical Symposium , 1982

Notas

(1) A palavra disciplina é aqui usada com o significado de curso de empreendedorismo.

(2) Cinco fatores importantes, segundo capitalistas de risco, segundo Timmons (1990): 1 a 4 - O empreendedor líder e a qualidade da equipe - 5 - O potencial de mercado

(3) Nos Estados Unidos, mais de 400 universidades ofereciam cursos de criação de empresas em 1988, contra 50 em 1975.

(4) VARELA, R., Lozano, M., "Espiritu empresarial en la educacion primaria; la experiencia del C.D.E.E.", V congresso Latinoamericano sobre espiritu empresarial, Santiago do Chile, 1991

(5) Filion, L.Jacques,"Visions et relations", clefs du succeès de l'entrepreneur". Les editions de l'entrepreneur. Montréal, Canadá, 1991

(6) Segundo Filion a "visão é uma idéia, muitas vezes um conjuntos de idéias (imagens) que se quer realizar (projetadas no futuro). Filion menciona três categorias de visão. A emergente, (inicial) a central e a complementar. As visões emergentes são formadas em torno de idéias e conceitos de produtos e serviços imaginados pelo empreendedor antes de começar um empreendimento. A visão central é o resultado de uma única ou de uma combinação de visões emergentes. A visão central exterior refere-se ao lugar que os produtos/serviços ocupam no mercado e a visão central interior diz respeito ao tipo de organização necessário para atingir os objetivos. As visões complementares são visões gerenciais voltadas para apoiar a visão central. A visão é sustentada por quatro elementos. O principal fator de suporte tanto da criação como do desenvolvimento da visão é, aparentemente, o sistemas de relações do empreendedor. Os outros fatores que influenciam no processo de formação da visão são: a liderança, a energia e o conceito de si.

(7) Idem

(8) Segundo Timmons, 1978, as características dos empreendedores são: 1-Iniciativa e energia, 2-Autoconfiança, 3-Abordagem a longo prazo, 4- Dinheiro como medida de desempenho, 5-Tenacidade, 6-Fixação de metas, 7-Riscos moderados, 8-Atitude positiva diante do fracasso, 9-Utilização de feedback sobre o seu comportamento, 10-Iniciativa, 11-Sabe buscar e utilizar recursos, 12-Não aceita padrões impostos, 13 Internalidade, 14-Tolerância à ambigüidade e incerteza.

(9) P.A. Schumann, Jr., Austin Creativity: "Key to the future", Technical Symposium, 1982

(10) Roger von Oech, "Um Toc na Cuca", , Livraria Cultura Editora Ltda., 1988 S.Paulo

(11) Exemplos (Timmons, 1990): a)A UNIVAC tinha mais tecnologia do que a IBM, mas não conseguiu agarrar as oportunidades emergentes no ramo de computadores. b) Entre 1967 e 1968, o investidor Fred Adler recebeu mais de 50 Projetos de Negócios de empreendedores que queriam criar empresas de minicomputadores. Muitas empresas tinham melhores idéias e tecnologia mais avançada do que a escolhida, DATA GENERAL'S, que tinha maior visão de mercado. Em 1988 a DG faturou US$ 1,3 milhões. C) Existiam planilhas melhores que a Lotus. Mas a entrada no mercado exigia US$ 5 milhões ou mais, para ganhar atenção e manter a distribuição.

(12) Fonte HomePage do SoftStart: http://www.softstat.org.br

(13) Fonte HomePage do SoftStart: http://www.softstat.org.br

(14) O Programa REUNE é apoiado por um consórcio de instituições, lideradas pelo Sebrae - Minas e Instituto Euvaldo Lodi - MG, e do qual participam a FUMSOFT, a Fundação João Pinheiro e a Secretaria de Estado de Ciência e Tecnologia.

(15) Fonte: Home Page do Programa REUNE ; http://www.reune.org.br

Fundação Vanzolini/ Projeto E