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8. DESENVOLVIMENTO CULTURAL: GERANDO EMPREGOS E IDENTIDADE

Íntegra da Entrevista

É comum pensar que trabalhar com atividades culturais é muito difícil imaginando que não há muito trabalho nesta área. Isto é verdade, Maximiliana?

Maximiliana Reis: Cada profissional, quando tem realmente vontade, vai se especializar para trabalhar na área que gosta e procurar as companhias. Algumas delas exigem mais do ator que está começando: cantar, dançar etc. O profissional tem que saber como é a companhia e sujeitar-se a testes que as pessoas as vezes não gostam, ficam nervosas, mas é o jeito do produtor avaliar. A minha companhia está aberta a receber currículos dos profissionais recém formados no teatro. A gente faz a avaliação e, claro, há uma peneira que seleciona os melhores para um determinado trabalho.

As atividades culturais não contam apenas com aqueles profissionais que se expõem, como os artistas, as atrizes, etc. Quais são as outras atividades?

Sonia Kavantan: A tendência é associar cultura com a exposição artística, ou seja com aqueles que atuam no palco ou frente às câmeras, mas o maior número de empregos, na realidade, está por trás dos bastidores. Pode ser, por exemplo, na área de produção, na área de programação - que aliás, no Brasil, falta gente especializada em programação. Também nas áreas correlatas, como criação e técnicas de iluminação, som, música, cenários etc. São inúmeras as atividades que compõe o evento cultural. Nas artes plásticas também isto acontece, pois uma exposição não conta só com o pintor. Precisa-se de uma gama enorme de serviços para que a tela chegue a ser exposta. Estas áreas profissionais não contam com formação acadêmica. As escolas de artes plásticas só formam o criador, o artista, e não os profissionais da produção. Também em artes cênicas, as universidades formam o ator e o diretor e não há focam em formar outros profissionais que atuam no teatro. Estes profissionais de produção têm que fazer cursos que, no Brasil, são poucos e em pequena escala, são cursos livres. Existe um campo muito grande para desenvolver estes profissionais, maior mesmo do que a parte artística, e é um mercado muito específico.

Onde são formados estes profissionais da parte técnica e de produção?

Sonia Kavantan: Existem apenas alguns cursos livres, de curta duração, as vezes nas oficinas culturais, nas secretarias de cultura estaduais e municipais. Apenas como referência, aqui em São Paulo, tem o Espaço Cenográfico*, do Serroni, que é um excelente cenógrafo e que criou este espaço para formar pessoas, mas não é, na verdade um curso, é uma formação prática, onde as pessoas têm até acesso a uma biblioteca e podem se agregar à equipe do Serroni. Também em São Paulo , as Oficinas Oswald de Andrade têm uma programação de cursos nestas áreas. Afora isto, tem cursos pagos que as pessoas têm que ficar buscando informações para saber onde têm cursos.

E vale a pena investir nestas formações, do ponto de vista da remuneração que vai se Ter enquanto profissional?

Sonia Kavantan: Ganha-se dinheiro sim. Como em qualquer área econômica, pode-se sobreviver com estes trabalhos e as vezes ocorre um sucesso econômico excepcional. Agora, são profissionais que precisam gostar de arte. Não basta ser um bom técnico, é preciso ter-se um referencial artístico. É preciso ler, ir ao teatro, cinema, exposições etc. O estudante, seja o que está preparando-se para ser técnico ou artista, que não se prepara neste sentido vai ter mais dificuldade para ingressar no mercado. Para ser um trabalhador de cultura é preciso ter este referencial artístico mais aberto que nenhum curso vai dar. Na área de produção, muita gente começa a discutir marketing cultural, patrocínio, leis de incentivo, e pensa em desenvolver um projeto de um show, de um livro, de um curta metragem para conseguir recursos, pensando que é fácil conseguir dinheiro. Mas não é fácil conseguir este dinheiro, como não é fácil conseguir qualquer dinheiro. A vantagem é que é possível empreender na área cultural sem ter um grande capital. Na área cultural, pode-se começar trabalhando em casa, pode-se mobilizar um grupo de pessoas para desenvolver um projeto e levantar a estrutura básica de produção. Mesmo as empresas que produzem eventos culturais, contam com um quadro enxutíssimo de profissionais e este quadro cresce nos momentos de pico da produção. Então , é possível começar a empreender em cultura com muito pouco dinheiro, principalmente se você entender da área, se tiver uma boa idéia artística que possa ser transformada num bom produto cultural e se você tiver noções, não só de arte, mas principalmente de economia. Hoje para se falar em negócio cultural, não dá para ter aquela resistência de encarar a arte fora da economia. Mas é preciso entender que o negócio cultural é específico, não é a mesma coisa que vender sabonete, porque tem um público específico e regras específicas principalmente se você vai trabalhar com patrocínio.

E para conseguir o patrocínio? Tem sido fácil para você conseguir patrocínios, Maximiliana?

Maximiliana Reis: Eu estou há 15 anos na área e dinheiro vivo, verba, eu nunca consigo. Admiro muito quem consegue. A única vez que consegui verba, que não era para teatro, eu mesma não ganhei nada porque gastei tudo e sobrou nada. Onde eu ganho é no teatro. Eu acredito no meu produto, na minha equipe, então, eu não tenho dó de investir os meus recursos. Toda a infraestrutura que eu tenho hoje, eu montei com um espetáculo que é o Draculinha. Quando fui montar este espetáculo, eu não tinha um tostão. O que eu consegui foram apoios culturais: fui lá no loja e consegui, por exemplo, os sapatos, os tecidos, a bicicleta. Mas tem coisas que não tem jeito, é preciso de dinheiro. No caso, eu precisava pagar o cenógrafo, o músico, a trilha sonora, o estúdio, a coreógrafa e as aulas. Na época, eu não achava um bailarino que soubesse sapatear e na minha concepção precisava que o elenco soubesse sapatear. Eu peguei a coreógrafa e a equipe fez aulas intensivas de sapateado, 6 horas por dia. Então, foi um financiamento da própria equipe. Eu negociei com os profissionais um preço maior para pagar depois, acreditando no resultado do espetáculo. Os profissionais me deram prazos, e eu fui pagando aos poucos, parcelado.

Quando a cultura movimenta de recursos hoje?

Sonia Kavantan: Isto é bem interessante. Há uns tempos atrás seria impossível responder a esta pergunta. Em 1998, o Ministério da Cultura encomendou uma pesquisa para a Fundação João Pinheiro. Chegou-se a um primeiro número: em 1997, a atividade cultural no Brasil foi responsável por quase 1% do PIB o que eqüivale aproximadamente a 6, 5 bilhões. É um número considerável. Para se ter uma idéia, a educação, que é considerada há muito tempo uma atividade econômica, movimenta cerca de um pouco mais de 2% do PIB. Existem estimativas de que cada milhão investido em cultura gera-se 160 empregos. Num momento de crise do emprego, estes números são muito interessantes. Este crescimento também é fruto desta virada que está ocorrendo em que o emprego está mudando muito. A relação de trabalho que está surgindo é muito diferente: possibilidades de trabalho on line, não ter vínculos de patrão-empregado e, principalmente, as substituições de mão de obra por tecnologia fazem com que o grande empregador seja o terceiro setor. Neste campo, a área de entretenimento, formada por lazer e cultura, seja fundamental para absorver os trabalhadores.

Mas é preciso preparar os trabalhadores para atuar nesta área? Como esta questão da formação está sendo encaminhada para este novo momento?

Sonia Kavantan: Isto começa a preocupar, de uma certa forma, o governo. Tanto é que se tem menos verbas para eventos e mais verbas para desenvolvimento de projetos de mais longo prazo, principalmente voltados à formação. Mas há muito o que fazer nesta área. Eu mesma tenho um exemplo interessante. Eu comecei, quase por acaso, a ministrar um curso de produção e marketing cultural. Eu trabalhava num órgão de representação do Ministério da Cultura e de vez em quando era chamada para dar uma palestra, um curso. Quando eu sai deste emprego, algumas pessoas começaram a me pedir um curso. Então, eu resolvi empreender nisto e abri o curso para ver se realmente haveriam inscritos. Surpreendeu muito o interesse. A cada turma, temos mais pessoas interessadas e que se inscrevem e um perfil que vai se alterando. Inicialmente, os participantes eram principalmente os artistas, atrizes, atores, diretores etc. E, hoje, são advogados, administradores de empresas, economistas que percebem que os seus empregos - e até mesmo os seus campos profissionais - correm riscos de extinção. Então, eles buscam agregar novos conhecimentos que abram novas perspectivas. Existem outras iniciativas de profissionais que se formaram, como eu, na prática e que estão fazendo cursos que contribuam para formar estes conhecimentos e habilidades. E as universidades também começam a ficar atentas para formar estes profissionais.

Há carência de profissionais e de empreendedores nesta área, não é? As pessoas podem começar a pensar nisto e não necessariamente atuar no evento cultural, mas a criar uma equipe que possa produzir diversos eventos...

Maximiliana Reis: Existem muitas oportunidades que não precisam de muito dinheiro. O produtor de teatro pode escolher um bom texto que não demanda grandes cenários, grandes produções...

Sonia Kavantan: Tem uma coisa fundamental. A atividade cultural é para o público e não para agradar uma pessoa, um artista. Se o empreendedor tem esta visão já facilita muito, porque aí ele trabalha focado neste público. Existe uma confusão entre atividade cultural e a televisão. As pessoas as vezes pensam que basta fazer e todo mundo vai se ligar, mas não é assim. A atividade cultural é muito segmentada. Assim como alguém que vai abrir uma loja, o empreendedor cultural precisa se especializar.

Maximiliana Reis: Isto é muito importante. Na minha companhia, a gente está sempre trabalhando a equipe para reciclagem, para diversificar as atividades etc., mas, eu por exemplo, sou péssima vendedora e quem faz isto bem é outra pessoa, é o Roberto, que gosta disto e sabe ir atrás, vender . Ele comecou como ator, mas foi descobrindo que a vocação dele era outra, mesmo que dentro do teatro.

Sonia Kavantan: Na atividade cultural, é preciso de fato a especialização. Já foi o tempo onde a pessoa dava conta de tudo. Não é mais possível fazer de tudo, bem feito e ter sucesso financeiro. A pessoa , as vezes, precisa experimentar, mas em algum momento ela precisa buscar o equilíbrio e decidir onde quer ficar.

* Para saber mais sobre o Espaço Cenográfico, dirigido por J.C. Serroni, visite o site http://www.geocities.com/~jcserroni.

Fundação Vanzolini/ Projeto E