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6. TURISMO: UM MUNDO DE OPORTUNIDADES

 Íntegra da Entrevista

José Roberto, como foi esta experiência de passar de atleta a empresário?

José Roberto: Nas competições no exterior fui observando que sempre coincidia o local de competição com empresas atuando no rafting que nada mais é do que levar as pessoas em botes infláveis para fazer percursos de rios, normalmente com corredeiras que é o que chama mais atenção do pessoal. O meu processo foi muito lento. Não havia empresas atuando nesta área no Brasil. Eu mesmo não acreditava que fosse me tornar empresário e viver exclusivamente disto. Mas fui apostando devagarinho a medida que o retorno ia acontecendo.

Professor Mario, gostaria que o senhor traçasse um pequeno painel do turismo?

Mario Beni: Recentes pesquisas realizadas pela Universidade de São Paulo revelam que o turismo impacta 52 segmentos diferentes da economia. O exemplo do José Roberto é um exemplo vivo, destacado de como as iniciativas individuais se multiplicam de forma extraordinária na atividade de turismo, recreação, entretenimento e lazer. Isto gera oportunidades de trabalho, desde alta tecnologia de formação específica como aquela voltada basicamente à comunicação revelada, por exemplo, nos sistemas mundiais de distribuição de serviços turísticos, os chamados SMD's, que utilizam redes internacionais com programas tipo Sabre, Galileu, Amadeo, Ábacus e outros sistemas que envolvem alta tecnologia e formação profissional. O turismo tem um leque de alternativas muito grandes envolvendo não só os profissionais com formação específica, com graduação em turismo, mas outros profissionais. Enquanto docente da USP, tenho participado de várias bancas de mestrado e doutorado em várias universidades do país , particularmente na Unicamp, em áreas de medicina (por exemplo, mestrados e doutorados em balneoterapia e crenoterapia), agroturismo ou turismo rural nas faculdades de engenharia agrícola, na educação física, na arquitetura (no planejamento territorial, recuperação de monumentos históricos, resgate e resignificação de espaços culturais, no inventário, cadastramento, tombamento e reutilização destes espaços). Enfim, há uma gama imensa e um leque de alternativas na geração de empregos que vem ao encontro da nossa estrutura econômica atual, oferecendo ao profissional com formação superior e nível médio. Mas, não basta só gerar emprego, é preciso gerar trabalho.

E você José Roberto, você tem cinco pontos em que realiza o rafting. Neles foram gerados trabalho?

José Roberto: A gente conseguiu envolver comunidades locais. Em São Luís do Paraitinga, dentro do Parque Estadual da Serra do Mar, a gente conseguiu que o pessoal de lá montasse uma empresa local, a Montana Rafting e isso gerou uma série de oportunidades para a comunidade local.

Para uma pessoa entrar no turismo, é preciso que ela tenha qual o tipo de formação?

Mario Beni: Há profissões diretamente envolvidas: arquiteto, redatores, publicitários, advogados. O advogado, por exemplo, ele só se encaixa. Há toda uma legislação na área ambiental, por exemplo. Mesmo se abrangermos toda a área de turismo, não há normas específicas para determinadas atividades. Assim como o engenheiro civil nas propostas estruturais de equipamentos em determinadas áreas. Eu sou engenheiro civil e acabei me especializando nestas áreas.

Que atividades podem ser desenvolvidas para atender demandas das empresas turísticas?

Mario Beni: O turismo é uma atividade que propicia a terceirização de muitos serviços. Em hotelaria, por exemplo, tem uma gama enorme de atividades terceirizadas. O time sharing, por exemplo, é a transposição do mercado imobiliário para o turismo. Há incontáveis possibilidades que não estão sendo exploradas.

José Roberto: No rafting, temos necessidade de atividades complementares. O rafting tem uma programação de um dia, ela não ocupa o final de semana . Em São Luiz do Paraitinga, uma empresa de alpinismo resolveu oferecer uma atividade de rappel (O rappel é uma técnica de descida vertical de montanhas através de cabo, muito utilizada pelos alpinistas) para complementar a programação e manter o pessoal no local mais um dia. Nós fizemos parceria com eles. Em Socorro, tem a turma do aquarider que desce rios com uma bóia, em trechos sem tanta correnteza. O próprio município propôs isto. Outra coisa, nós não conseguíamos oferecer um serviço de fotografar as pessoas na descida dos rios e isto agora é feito por uma empresa.

Mario Beni: Eu tenho uma aluna que trabalha num segmento específico do mercado de viagens: empregadas domésticas. Ela começou fretando um ônibus e hoje ela freta 17 só para este nicho de mercado. Há exemplos de roteiros temáticos com características fantásticas no sul do país. Cidades como Nova Trento, onde se fala um trentino que se falava na Itália nos fins do século 17. Estão sendo desenvolvidas serviços extremamente diferenciadas. Conheço pessoas que trabalham em casa refinando roteiros turísticos. Iniciativas autóctones da população local, como é o caso das pousadas em Porto Seguro que nasceram a partir de uma pessoa que resolveu oferecer uma parte de sua residência e passou a integrar o turismo. Exemplo típico é o projeto Casa de Pedra nas montanhas da Serra Gaúcha onde os colonos italianos desenvolveram atividades em alojamentos muito especiais com comida típica, roupa de cama engomada etc.

Quando se fala em turismo, sempre pensamos no fim de semana, nas férias. Como garantir a continuidade?

Mario Beni: O aspecto sazonal é um desafio. A terceira idade, por exemplo, viaja o ano todo. No Brasil este segmento está começando e é um nicho de mercado muito importante. A Embratur também está pensando em propor modificações no calendário de férias que possibilite a alternância das férias neste país de dimensões continentais.

Qual o maior medo das pessoas que trabalham com o turismo?

José Roberto: Todo momento de incerteza, crise e recessão se reflete diretamente no turismo.

Mario Beni: A primeira coisa que se corta é despesa com turismo. Não só a crise econômica, também os problemas de risco de meteorológicos, terrorismo, segurança público, fundamentalismo religioso etc.

O turismo hoje é de fato uma alternativa para o emprego no Brasil?

Mario Beni: É necessário que o governo, a iniciativa privada, as instituições de ensino e a imprensa trabalhem no sentido de apontar oportunidades, assim como está fazendo a Fundação Vanzolini.

Fundação Vanzolini/ Projeto E