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Como
é que surgiu o cooperativismo? Foi num
momento de dificuldades como o que estamos vivendo
hoje?
Diva
Pinho: O modelo principal
do cooperativismo surgiu na Inglaterra em 1844
quando os trabalhadores da área têxtil
atravessavam graves problemas. Eles se reuniram
para resolver problemas de alimentação,
de sobrevivência e elaboraram um modelo
de cooperativa que passou a ser padrão
para as cooperativas de consumo.
Como
é que funcionam as cooperativas de trabalho?
Como é possível alguns trabalhadores
se associarem em cooperativas?
Walter
Tesch: Hoje estamos vivendo
uma mudança do próprio conceito
de trabalho. As pessoas, às vezes, confundem
estar numa cooperativa com ter um emprego. O
emprego é uma relação em
que há um empregador e o trabalhador
é um sujeito assalariado, subordinado
a este empregador. Estar numa cooperativa, a
pessoa tem que assumir que é protagonista
no processo produtivo. Deve conhecer o mercado
onde vai atuar e ter habilidade adequada para
isto. A legislação brasileira
tem algumas restrições: ela exige
que se tenha pelo menos 20 pessoas para constituir
uma nova cooperativa. Primeiro, é preciso,
então, que se tenha um grupo com alguma
coesão e que este grupo tenha uma liderança
boa que motive, estimule e agregue estas pessoas
e veja qual a viabilidade delas na relação
com o mercado. Se tiver um bom e viável
projeto econômico, se tiver uma aliança,
com apoio num local, com telefone e infraestrutura
mínima, se tiver uma possibilidade de
um contrato, então, há condições
de se dar certo.
Como
é este processo? Eu me associo em uma
cooperativa e o que devo fazer para ser um bom
cooperado?
Diva
Pinho: Eu já dei aula
para cooperativas de trabalho que foram fundadas
de cima para baixo por ministérios e
secretarias governamentais. Elas já haviam
elegido o conselho administrativo e o conselho
fiscal e se perguntavam: e agora, o que fazemos?
O desafio era justamente treinar este pessoal
para a autogestão. O indivíduo
que tem uma mentalidade de empregado, de repente
está diante de outra condição:
é autônomo, é dono do seu
próprio destino. Ele precisa estar preparado
para as atividades de autônomo. Aí
eu entrava com a parte educacional: ensinar
as pessoas sobre o que é uma cooperativa,
quais os preceitos democráticos de autogestão
da cooperativa etc. Dependendo dos profissionais,
nós tínhamos aulas no fim de semana
para ensinar o mínimo sobre administração
de uma empresa cooperativa, o mínimo
sobre fluxo de caixa, o mínimo sobre
administração financeira de uma
cooperativa. Depois, era preciso dar atendimento,
pelo menos no primeiro ano de funcionamento
da cooperativa.
Quais
são os fatores que atrapalham o cooperativismo
no Brasil?
Walter
Tesch: O Brasil só
tem 4% da população economicamente
ativa envolvida de alguma maneira com cooperativas,
o que é muito pouco em relação
ao Canadá que tem mais de 50% e à
Argentina com mais de 39%. Esta cultura de cooperação
é o primeiro fator importante para que
funcione bem uma estrutura que exige alto grau
de participação com autonomia.
Outro aspecto é a legislação
do trabalho que está construída
com uma lógica de subordinação
do trabalho ao capital. Não há
no Direito nenhuma lógica que prevê
a possibilidade do sujeito controlar e participar
do seu trabalho. Mesmo o autônomo é
o autônomo da CLT, o indivíduo
isolado. Na cooperativa, este autonomo é
um trabalhador associado à cooperativa.
Eliminar a intermediação é
um dos princípios cooperativistas. Quem
é o grande intermediador? É o
Estado. Aí temos dois problemas básicos:
a Previdência Social e os tributos diversos.
Nestes não se reconhece a organização
do trabalhador em cooperativas como organização
altamente benéfica à sociedade.
Benéfica porque está evitando
que este sujeito cooperado use o serviço
público sem contribuir e evitando também
a desestabilização maior deste
sujeito e de sua família.
Existem
críticas sobre as cooperativas tomarem
atitudes sem consultar os cooperados...
Diva
Pinho: O administrador tem
que ter bom senso: até quando ele pede
a participação sem virar o "assembleísmo"
desnecessário. Mas o que acontece mesmo
é que nós não temos uma
tradição de associativismo. É
necessário que as pessoas tenham interesse
de alguma forma na reunião. No exterior,
mesmo em países de forte tradição
cooperativista, muitas cooperativas organizam
churrasco, confraternizações,
diversões para a família etc.
São técnicas para atrair os cooperados
para a reunião.
Walter
Tesch: É importante
diferenciar: numa cooperativa de habitação,
o sujeito quer uma casa, na cooperativa de crédito,
ele quer ter o dinheiro barato. Na cooperativa
de trabalho a participação está
diretamente relacionada com a coisa cooperada
que é o trabalho. Neste caso, discutir
o preço do contrato é vital, bem
como a composição dos custos e
como o trabalho do sujeito participa daquele
contrato. A cooperativa é um bom instrumento
de cidadania se ela discute o processo econômico.
Aí não precisa de outra coisa.
Diva
Pinho: Eu fui presidente
de uma cooperativa de pesquisadores da USP.
Às vezes uma pesquisa é encomendada
para uma cooperativa em que só uma pequena
parcela é capaz de desenvolver aquele
trabalho. Os critérios de distribuição
do trabalho é muito importante nas cooperativas
de trabalho.
Walter
Tesch: A gente observa em
algumas cooperativas que começam com
um certo tema e no final têm que mudar
porque aquele tema já não existe.
Diva
Pinho: São profissões
que desaparecem. As cooperativas também
devem se reciclar.
Walter
Tesch: Quando se chega para
formalizar uma cooperativa na Junta Comercial,
ela exige que se tenha bem claro o objetivo
da cooperativa. Às vezes este objetivo
caduca. Um exemplo, é uma cooperativa
dos ex-empregados da COBRAPE que ficou um tempo
esperando projetos de desenho, mas já
não tinha mais projetos na área.
Foi preciso se requalificar, se diversificar,
por exemplo, em turismo, em gestão de
cooperativas. Como qualquer empresa, a cooperativa
deve rever seu objeto de trabalho.
Diva
Pinho: Deve-se adotar um
objeto de trabalho geral, amplo que permita
redefinir a atividade em função
das mudanças do mercado. Uma outra questão
importante é o princípio da adesão
livre. Qualquer pessoa pode entrar e sair de
uma cooperativa livremente. Mas, nem sempre
há mercado para todos. A UNIMED, por
exemplo, está delimitando a adesão
por bairros. Ela precisa redirecionar a adesão
para os bairros em que ela não tem médicos.
A Cooperativa dos Práticos do Porto de
Santos tem 20 e poucos associados. Ela não
pode abrir para mais associados porque não
tem volume de navios que possibilite trabalho
para mais gente. Por razões técnicas,
uma cooperativa pode e deve suspender a adesão
de novos associados.
Como
a pessoa busca apoio para abrir uma cooperativa?
Diva
Pinho: Geralmente as organizações
das cooperativas em cada estado dão esta
orientação. A OCB - Organização
das Cooperativas Brasileiras, em Brasília,
também orienta. É importante que
a pessoa procure e visite uma cooperativa do
mesmo ramo que esteja funcionando bem para saber
como ela funciona, quais os problemas. Depois,
ela reúne o grupo interessado e analisa
se vale mesmo a pena organizar aquela cooperativa.
Walter
Tesch: Devemos eliminar da
nossa linguagem a expressão "montar
uma cooperativa" porque as vezes as pessoas
pensam que um contador ou um advogado é
que vai fazer isto, o que é bem típico
no Brasil. Se não tiver o grupo, não
há possibilidade da cooperativa. Organizar
a cooperativa é um processo. Em São
Paulo, organizamos o Manual da Cooperativa com
a lei (muita gente não conhece a lei),
com o estatuto e com 60 perguntas que o grupo
deve responder antes de saber se a cooperativa
é uma opção. Quem quer
informações pode procurar a OCESP
e a FETRABALHO que também orientam através
de documentos na Internet: http://www.ocesp.org.br e http://www.fetrabalhosp.org.br.

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