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Gênero em Cooperativas
Diva
Benevides Pinho
"Estou mais empenhada
em criar uma política de aliança
[entre homens e mulheres] do que em defender
alguma bandeira feminista" - "As mulheres
devem se unir aos homens para a luta contra
a crise econômica que afeta a ambos"
- "Podemos construir uma comunidade que
transcenda a divergente política de grupos
de homens e mulheres separados". Betty
Friedan(1)
Que
é gênero?
Tanto
nos países emergentes como nos países
ricos, a desigualdade no mercado de trabalho
e a exclusão econômica afetam a
maioria das mulheres, sobretudo a mulher negra,
mas afetam também os homens iletrados
e sem profissão definida, ainda que brancos.
De
modo geral, o assunto gênero desperta
polêmica sempre que se confunde gênero
com feminismo e sexismo. Mas estes três
termos têm significados diferentes: enquanto
os dois últimos referem-se às
diferenças biológicas entre a
mulher e o homem, o gênero (do latim genus,
generis) refere-se ao tipo de relação
social entre mulheres e homens. Ou seja, diz
respeito às diferenças que são
socialmente construídas e culturalmente
especificadas para mulheres e para homens, em
determinada época e para uma dada sociedade.
Em
outros termos, as relações de
gênero podem variar no tempo e no espaço
segundo as mudanças sociais, econômicas,
políticas e culturais que ocorrem nas
sociedades, em diferentes épocas.
Gênero,
explica a Assessoria Internacional do Ministério
do Trabalho, em "Brasil, Gênero e
Raça" (Brasília, 1998) -
"é um conceito que se refere a um
conjunto de atributos negativos ou positivos
que se aplicam diferencialmente a homens e mulheres,
inclusive desde o momento do nascimento, e determinam
as funções, papéis, ocupações
e as relações que homens e mulheres
desempenham na sociedade e entre eles mesmos."
E continua: "Esses papéis e relações
não são determinados pela Biologia
mas sim pelo contexto social, cultural, político,
religioso e econômico de cada organização
humana, e são passados de uma geração
a outra".
É,
portanto, a sociedade que estabelece os papéis,
as funções, o comportamento e
o perfil que identificam a mulher e o homem
nos grupos sociais. As características
sexuais, entretanto, são determinadas
biologicamente desde o momento da concepção.
Gênero
não se confunde com preconceito ou julgamento
negativo prévio de pessoas ou grupos
estigmatizados por estereótipos. Nem
com qualquer forma de discriminação
social, étnica, sexual, etária
ou outra. As questões de gênero
são também distintas das reivindicações
dos movimentos feministas e de luta das mulheres
por sua emancipação.
O
conceito de gênero tem seu embasamento
principal na Sociologia e nas Ciências
Sociais ou seja, no entendimento de que sociedade
é a vida em grupos. E a cultura ocidental
de nossa época está marcada por
interações de mulheres e homens
em grupos mistos, com destaque para a família,
a escola, a igreja, a empresa e associações
formais e informais dos mais diversos fins,
desde o atendimento de necessidades vitais até
a satisfação de necessidades culturais
e de lazer.
E
assim, sem conteúdo discriminatório,
o conceito de gênero é especialmente
útil como instrumento analítico,
quer no planejamento quer no gerenciamento e
avaliação de programas nos quais
as mulheres e os homens trabalham juntos e não
em grupos isolados e opostos.
Questões
de Gênero e Papéis de Gênero
Se
as relações sócio-econômicas
entre mulheres e homens podem variar em diferentes
sociedades e em diferentes épocas, as
questões de gênero referem-se ao
papel que mulheres e homens desempenham em um
dado momento e em um determinado contexto sócio-econômico,
político e cultural. Não são,
portanto, questões decorrentes das diferenças
biológicas entre ambos, como já
ficou esclarecido.
Na
mesma linha de considerações,
os papéis de gênero não
são determinados por fatores biológicos,
mas pelos grupos sociais, pela sociedade em
que vivem as mulheres e os homens. Os afazeres
domésticos e os cuidados com os filhos,
por exemplo, têm sido tradicionalmente
considerados "papéis" femininos.
Isto explica a "aceitação"
da dupla jornada, tanto pela sociedade, quanto
pelas próprias mulheres que trabalham
"fora do lar".
Ainda
a respeito dos papéis do gênero,
verifica-se que em grande número de países
africanos, asiáticos e latino-americanos,
é costume as mulheres campesinas (lavradoras,
agricultoras, rurícolas) acumularem encargos
domésticos decorrentes das funções
reprodutivas, específicas de sua estrutura
biológica, com funções
de produção determinadas pelos
usos e costumes, tais como a agricultura de
subsistência e a produção
de alimentos. Daí o tema escolhido pela
FAO - A Mulher Alimenta o Mundo, para comemorar
o Dia Mundial da Alimentação em
1998 (cf o Cap. 4 deste trabalho).
Nas
áreas rurais mais pobres dos países
emergentes, portanto, as atividades da economia
de subsistência, sobretudo plantio, colheita
e preparo de alimentos, são, em geral,
atribuição das mulheres. Mas há
casos em que a campesina consegue complementar
os parcos recursos provenientes da atividade
rural com produção artesanal em
pequena escala e sua "comercialização"
informal. E quando os trabalhos manuais revelam
um certo "quê" artístico
naïf ou respondem à demanda de algum
polo turístico, geralmente próximo,
acabam surgindo núcleos inicialmente
informais de artesãs (bordadeiras, rendeiras,
tapeceiras e outras), cuja expansão chega
a envolver a colaboração de seus
parceiros e parentes.
Estudos
sobre serviços não remunerados
em geral, salientam que essa área é
tipicamente "de trabalho feminino".
Os serviços gratuitos da dona-de-casa,
ou da mulher de "prendas domésticas"
não são sequer avaliados por imputação
para efeito de cálculo da Contabilidade
Social de cada país, segundo metodologia
das Nações Unidas, aprovada internacionalmente,
há várias décadas.
Qual
o objetivo de se identificar e analisar os papéis
do gênero na área rural e na área
urbana? Ou em empresas públicas, privadas
e mistas? Ou em qualquer tipo de empreendimento
econômico?
As
respostas podem ser assim resumidas - o objetivo
principal é a busca de fundamentos a
propostas de correção do desbalanceamento,
especialmente econômico, nas relações
de trabalho do gênero. Em outros termos,
procura-se levantar material para a programação
de estratégias em direção
à igualdade do gênero.
A
identificação da maneira de solucionar
os problemas, ou como diminuir a distância
social, econômica e política entre
mulheres e homens, torna-se mais visível
quando são analisados, por exemplo, os
papéis do gênero e suas respectivas
remunerações em relação
ao nível de escolaridade de cada um deles.
De modo geral, as estatísticas mostram
que as mulheres urbanas, sobretudo em determinados
segmentos sociais, estão investindo,
cada vez mais, em estudos profissionalizantes
de nível superior e ingressando rapidamente
no mercado de trabalho. Na maioria dos casos,
entretanto, recebem salários menores
que os homens nas mesmas funções,
ainda que eles tenham escolaridade inferior.
(cf os Cap. 2 e 3 deste trabalho).
As
Nações Unidas, BIT (ou OIT, Organização
Internacional do Trabalho), FAO (Organização
para a Agricultura e Alimentação),
ACI (Aliança Cooperativa internacional),
entre outras organizações internacionais,
enumeram várias medidas para valorização
do potencial profissional das mulheres, tais
como implementação de programas
de educação, distribuição
eqüitativa dos benefícios do empreendimento
socioeconômico a ambos; acesso da mulher
(sobretudo campesinas) a recursos produtivos,
sejam eles terra, água, recursos naturais,
crédito ou tecnologia; facilidades de
treinamento para corrigir desigualdades econômicas
e políticas do gênero; maior acesso
das mulheres a posições de liderança
e de decisão em assuntos de seu interesse
direto. E também outras medidas, como
reorientação do sistema legal
para reconhecimento dos direitos das mulheres,
sobretudo nas áreas de saúde,
política demográfica e direitos
humanos; mudanças em antigas divisões
sociais de trabalho do gênero, que atribuem
às mulheres atividades não remuneradas
(domésticas, economia agrícola
de subsistência e outras, como já
foi citado).
As
Nações Unidas continuam insistindo
na necessidade de mudanças consideradas
básicas para a igualdade do gênero.
Assim, o PNUD, Programa das Nações
Unidas para o Desenvolvimento, dedica especial
atenção à capacitação
dos recursos humanos para o desenvolvimento
sustentado, repetindo freqüentemente o
alerta:
as mulheres continuam
excluídas do poder;
em todos os países
o trabalho das mulheres não é
devidamente valorizado, e sua remuneração
é menor que a dos homens, até
mesmo em atividades iguais;
a alfabetização
feminina e a matrícula escolar de mulheres
em cursos de 1º e 2º graus, continuam
sendo menores em comparação aos
homens.
Daí
o questionamento: se a cooperativa é
"associação voluntária
e aberta a todos que podem associar-se, apresentem
condições para utilizar seus serviços
e queiram aceitar as responsabilidades de associado".
Se a cooperativa, de acordo com o próprio
ideário cooperativista, tem compromisso
com a indiscriminação de qualquer
tipo, inclusive de gênero, pergunta-se:
a empresa cooperativa apresenta condições
especialmente propícias à prática
da igualdade econômica e profissional
entre mulheres e homens?
Gênero
em Cooperativas
"As
cooperativas estão embasadas em valores
de ajuda-mútua, recíproca responsabilidade,
igualdade e equidade". BIT-ACI (1)
"As
cooperativas tornar-se-ão mais fortes
economicamente e mais influentes politicamente
se mais mulheres (a invisível força-de-trabalho)
forem ativamente envolvidas". ( idem)
A
análise da questão - se a cooperativa
apresenta condições especialmente
propícias à prática da
igualdade econômica e profissional entre
mulheres e homens - pode ser feita sob dois
principais enfoques sistêmicos esquemáticos:
"abstrato" ou "puro" e "concreto"
ou "aplicado".
(1) Do ponto de vista
abstrato, costuma-se avaliar qualitativamente
o Cooperativismo como sistema(2)
que busca a reorganização pacífica
e democrática da sociedade pela economia,
com apoio em cooperativas dos mais diversos
ramos, setores ou categorias de atividades socioeconômicas.
Esta avaliação qualitativa pode
abranger diferentes fases da história
do pensamento cooperativo, desde as propostas
dos "Pioneiros", imbuídas de
preceitos doutrinários, filosóficos,
morais e religiosos, até as tendências
atuais de racionalidade administrativa, busca
de Qualidade e Produtividade, produção
segundo padrões internacionais para aumentar
a competitividade, diminuir custos e inserir
as cooperativas na sociedade globalizada que
está se instalando no mundo. E recentemente,
a avaliação qualitativa do Cooperativismo
passa também pela consideração
dos argumentos que estão sendo elaborados
por analistas e administradores de empresas
a respeito do emergente Terceiro Setor.
Sob a ótica sistêmica,
o Cooperativismo visa a integração
dos valores cooperativos de seus Pioneiros (responsabilidade,
democracia, igualdade, equidade e solidariedade)
aos valores éticos cooperativistas -
honestidade, mecanismos democráticos
de consulta e informação dos associados,
responsabilidade social e associação
voluntária de pessoas para se entre-ajudarem
economicamente.(3)
Como
associações sem fins lucrativos,
as cooperativas integram o emergente Terceiro
Setor, cuja característica predominante
é a capacidade de canalizar a participação
da comunidade para a apresentação
de respostas alternativas a vários problemas
de nossa época, sobretudo aqueles decorrentes
de rápidas mudanças sociais e
tecnológicas.
Aliás,
o Terceiro Setor reúne, além das
cooperativas, outras associações
sem fins lucrativos como fundações,
institutos, entidades beneficentes e ONGs em
geral (Organizações Não
Governamentais). Ou seja, compreende organizações
privadas (segundo setor) que cumprem funções
públicas (primeiro setor) com o fim de
promover o desenvolvimento local, a defesa do
ambiente e dos direitos civis, bem como cumprir
outros objetivos da sociedade, ainda não
atendidos ou deixados sob responsabilidade do
Estado.
São de tal forma
importantes o alcance e a escala do Terceiro
Setor, que autores como Salamon(4)
consideram que se está no meio de uma
revolução associativa global tão
significativa para este final do século
XX quanto a emergência do Estado-Nação
no fim do século XIX.
(2)
Do ponto de vista concreto ou aplicado, todavia,
o problema é mais complexo devido à
escassez de estatísticas sobre o gênero
que possibilitem comparar-se, qualitativa e
quantitativamente, a participação
das mulheres e dos homens em todas as atividades
das cooperativas, em nível local, regional,
nacional e internacional.
Realmente,
quase não existem estatísticas
sobre a participação das mulheres
nas cooperativas. Geralmente os dados se limitam
a informações agregadas sobre
o corpo associativo, pouco ou quase nada informando
sobre o gênero quanto a grau de escolaridade,
faixa etária, profissão, encargos
familiares, rendimentos ou a presença
de mulheres e homens em postos de direção
de cooperativas, em atividades executivas, Conselhos
de Administração, Fiscal e outros.
Quando alguns desses dados existem limitam-se,
geralmente, a um determinado complexo cooperativo
ou a um ramo cooperativista urbano/rural de
área de economia dinâmica. Ou,
então, são estudos-de-caso de
cooperativas para exemplificar formas marcantes
de êxito cooperativo ou, ainda, experiências
de entre-ajuda cooperativista da população
de baixa renda.
Mas quase sempre as
informações estatísticas
referem-se apenas a determinado período,
o que dificulta a elaboração de
séries para comparações
sobre papéis e questões do gênero,
ainda que dentro de uma mesma região.
E mesmo quando órgãos internacionais
elaboram índices de avaliação
do gênero por país, não
há como desagregá-los, de modo
que a interpretação nada informa
a respeito dos reflexos dos grandes desequilíbrios
sociais, econômicos, políticos
e culturais regionais sobre os papéis
do gênero, sobretudo em países
emergentes.(5)
Todos
esses fatores representam obstáculos
à análise quantitativa das cooperativas
e dificultam a elaboração de programas
de sensibilização e/ou de implementação
de medidas de igualdade do gênero.
Pode-se
dizer que, teoricamente ou em termos "abstratos"
ou "puros", o modelo cooperativo apresenta
ótimas condições para a
prática da igualdade entre associadas
e associados.
Mas
até que se disponha de bancos de dados
e de um número razoável de estudos-de-casos
de cooperativas de vários ramos, continua
predominando a avaliação qualitativa.
Apesar
dessas dificuldades, a vocação
de igualdade característica do Cooperativismo
continua sendo reconhecida e enaltecida internacionalmente,
como será destacado a seguir.
A
Tradição Cooperativista de Oposição
a Discriminações
A
Aliança Cooperativa Internacional (ACI),
cuja missão básica consiste "em
unir, representar, fortalecer e atender as cooperativas
do mundo inteiro", há mais de cem
anos mantém sua oposição
a qualquer tipo de discriminação.
O
artigo 1o da Declaração de Identidade
da Cooperativa, aprovada pelo Congresso do Centenário
da ACI (Manchester, 1995) reconhece a cooperativa
como associação voluntária
e aberta aos associados, de modo que podem nela
ingressar "todos aqueles que apresentem
condições de utilizar seus serviços
e queiram aceitar as responsabilidades de associado,
sem discriminação de gênero
(grifo nosso), social, racial, política
ou religiosa".
E
assim, a ACI agregou, oficialmente, a palavra
gênero ao elenco de discriminações
que não devem existir no ambiente cooperativista.
Referências
às Cooperativas em Debates Internacionais
sobre Gênero
De
modo geral, freqüentemente os debates internacionais
sobre problemas do gênero destacam as
cooperativas como forma organizatória
especialmente favorável à superação
das desigualdades que os usos e costumes ergueram
entre homens e mulheres.
A
ACI, Aliança Cooperativa Internacional,
com sede em Genebra (Suíça) e
Escritórios Regionais em todos os Continentes
(cf. Texto de Apoio a este Capítulo 1
sobre a ACI), vem debatendo os problemas da
discriminação do gênero.
Assim, por exemplo, realizou em San José
(Costa Rica, nov/96) o I Encontro Continental
de Mulheres Cooperativistas, que contou com
a participação de 450 mulheres
de 29 países. Os principais destaques
temáticos concentraram-se na análise
do Papel das Mulheres no Movimento Cooperativo,
sua Visibilidade e sua Contribuição.
E os principais produtos finais foram incluídos
na "Plataforma de Ação de
Mulheres Cooperativistas do Continente Americano",
constante das "Bases para a Elaboração
de uma Estratégia de Gênero nas
Cooperativas das Américas" e da
"Proposta de Criação de um
Comitê das Mulheres Cooperativistas das
Américas". Em abril/97, em Santiago
(Chile), a ACI realizou também um Encontro
das delegadas oficiais de cada país das
Américas, para definir as linhas-mestras
do Comitê criado no Encontro de San José
(1996). Em Genebra (Suíça, set/97)
e no México (nov/97), a ACI continuou
os debates sobre questões do gênero
em cooperativas.
Outros
eventos, promovidos pelas Nações
Unidas, como a Década da Mulher, significaram
oportunidades para debates de questões
do gênero. O início do decênio
dedicado à mulher foi marcado pela Conferência
de 1975, no México, e continuou em outros
locais, com destaque para Copenhague (Noruega,
1982) e Nairobi (Kênia, 1995), terminando
com expressivo encontro em Pequim (1995).
Devem
ser registrados também vários
outros eventos internacionais que incluíram
a contribuição socioeconômica
da mulher no contexto de assuntos relevantes,
tais como congressos sobre população
(Cairo/94), meio ambiente (Brasil/92), direitos
humanos (Viena/93), desenvolvimento social (Copenhague/95)
e outros.
As
Cooperativas e a Igualdade do Gênero
Essa
questão tem sido debatida, em diferentes
oportunidades, pela Aliança Cooperativa
Internacional, fortemente apoiada e estimulada
por organizações internacionais,
como Nações Unidas, BIT e FAO
(várias vezes citadas ao longo deste
trabalho e nos Textos Complementares desde Cap.
1).
Em
nível local e regional, nos últimos
anos, os debates estão envolvendo todos
os ramos ou categorias de cooperativas, com
destaque recente para as cooperativas de trabalho.
As
respostas às principais questões
relacionadas à persistente desigualdade
do gênero, inclusive em estruturas cooperativistas
que histórica e doutrinariamente vêm
se opondo a qualquer forma de discriminação,
podem ser reunidas em três grupos principais:
no primeiro grupo
estão os observadores pessimistas que
consideram praticamente difícil a igualdade
socioeconômica de mulheres e homens cooperativistas,
ainda que a longo prazo, devido a necessidade
de prévias reformas sociais de grandes
dimensões, que redistribuam os papéis
profissionais e culturais desses atores nos
vários grupos sociais e não apenas
nas cooperativas. Sem a revisão dos papéis
das mulheres e dos homens na própria
base social, ainda representada pela família,
não se poderá chegar à
igualdade do gênero em quaisquer outros
grupos sociais.
o segundo grupo reúne
observadores otimistas que consideram a estrutura
do sistema cooperativo plenamente adequada,
faltando apenas programas de implementação
da equidade do gênero;
o terceiro grupo
abrange observadores realistas, que apontam
deficiências a serem urgentemente corrigidas,
tais como as atuais formas de socialização
das pessoas pela família e pela educação
básica, ambas ainda muito atreladas à
divisão profissional com base em diferenças
biológicas entre homens e mulheres.
Qualquer
que seja o posicionamento, entretanto, observa-se
que o ponto comum entre eles é o consenso
quanto à possibilidade da cooperativa
efetivar ações programáticas
em prol da igualdade do gênero.
Para
se passar da retórica à ação,
o que é necessário?
Para
o Sistema Cooperativista passar de propostas
teóricas a ações práticas
de igualdade do gênero, precisa desenvolver
amplo programa educativo direcionado à
participação plena e conjunta
de homens e mulheres nas cooperativas.
Ou
seja, educação formal e informal,
planos e programas de treinamento, assistência
técnica, financiamento de projetos adequados,
tanto de curto como de médio e longo
prazo - são estratégias básicas
para que as cooperativas e, de modo geral, as
associações de auto-ajuda e desenvolvimento
participativo, possam realmente efetivar programas
de igualdade do gênero.
Essas
estratégias, evidentemente, pressupõem
amplo envolvimento de mulheres e homens em todas
as funções da cooperativa, inclusive
no planejamento, tomada de decisões,
implementação e controle administrativo
e financeiro.
Mas
esse envolvimento do gênero, por sua vez,
está diretamente ligado à prévias
medidas de políticas de sensibilização,
que destaquem a importância da igualdade
de direitos entre mulheres e homens, ambos partícipes
do esforço de desenvolvimento auto-sustentado
das cooperativas.
Todas
as ações estratégicas,
entretanto, devem ser consideradas realisticamente,
despojadas dos mitos que geralmente têm
acompanhado as associações voluntárias
sem fins lucrativos, como por exemplo, o mito
de que são o mais eficiente instrumento
de combate ao capitalismo desbragado, o mito
de que a ação privada voluntária
deve ser exclusiva, o mito da virtude humana
pura, o mito de que as cooperativas podem mudar
moralmente as pessoas e, por etapas, mudar a
sociedade inteira, o mito do "ser cooperativo",
que mescla o idealismo romântico à
solidariedade, que abandona o egoísmo
e o isolamento para viver na comunidade cooperativista...
e muitos outros mitos decorrentes do direito
natural, de preceitos morais, religiosos e do
próprio ideário de justiça
social.
Entretanto, na atual
Era do Conhecimento, está desaparecendo
o mito da improvisação do administrador
cooperativista, típico da fase "Heróica"
ou Pioneira(6)
de Cooperativismo, quando se considerava que
idealismo e sólida formação
moral eram suficientes para o cooperado desempenhar
bem três papéis simultâneos
- de associado, de proprietário e de
empresário.
Atualmente,
os/as cooperativistas devem se preparar para
enfrentar múltiplos desafios, não
apenas no campo empresarial (como busca de Qualidade
e Produtividade, cibercomércio, comunicações
intranet e internet, valorização
do capital intelectual) mas também no
campo macro-social, tão afetado pelas
rápidas e profundas mudanças que
abalam o final deste século, um dos mais
violentos da História.
A
educação representa, sem dúvida,
a estratégia básica para a profissionalização
e a participação conjunta de homens
e mulheres no desenvolvimento das cooperativas
e do próprio Sistema Cooperativista.
Notas
(1)
Betty Friedan, líder do movimento feminista
que revolucionou os USA nos anos 60, com a obra
"A Mística Feminina" (cuja
demanda, ainda hoje, é muito grande),
rompeu com os grupos mais radicais. Em entrevista
à Veja (30/08/95), reconhece que houve
muitas mudanças no decorrer dos últimos
trinta anos e defende a necessidade de união
entre mulheres e homens para o sucesso da igualdade
social (grifo nosso).
(2)
O enfoque do Cooperativismo como sistema é
debatido em Sistemas Econômicos Comparados,
de Carlos Marques Pinho e Diva Benevides Pinho
(Saraiva, 1984), Seção III, pp.97-113.
(3)
A Aliança Cooperativa Internacional,
por ocasião do Congresso comemorativo
de seu centenário, realizado em Manchester
em 1995, recomendou também que a prática
dos valores cooperativos deve seguir as linhas
mestras dos sete princípios cooperativos:
1. Associação voluntária
e aberta; 2. Controle democrático dos
membros; 3. Participação econômica
dos membros; 4. Autonomia e independência;
5. Educação, Treinamento e Informação;
6. Cooperação entre cooperativas;
7. Preocupação com a comunidade.
(Cf. os Textos Complementares a este Cap. 1)
(4)
Leslie Salamon, diretor do Projeto Comparativo
do Setor Não-Lucrativo, da John Hopkins
University, presta assessoria ao Terceiro Setor
em mais de vinte países. Cf. seu artigo
A Emergência do Terceiro Setor, uma Revolução
Associativa Global, Revista de Administração,
São Paulo, v. 33, n.1, pp 5-11, janeiro/março
1998.
(5)
É o caso dos quatro índices recentemente
desenvolvidos pelas Nações Unidas
para avaliar a população mundial
em termos de desenvolvimento humano, de comparação
entre homens e mulheres, de capacitação
do gênero e de pobreza humana - HDI (Human
Development Index), GDI (Gender-related Development
Index), GEM (Gender Empowerment Measure) e HPI
(Human Poverty Index) - assunto tratado no Cap.2
deste livro.
(6)
Tratamos desse assunto em trabalhos anteriores,
em especial Evolução do Pensamento
Cooperativo, vol. I do Manual de Cooperativismo,
Brasília, OCB/CNPq, 2ª ed. 1992;
publicado também em espanhol, número
76 de Cuadernos de Cultura Cooperativa, pela
Intercoop Editora Cooperativa Lda, da Argentina.

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