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PREPARANDO-SE DESDE JOVEM PARA EMPREENDER
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Preparando-se desde jovem para empreender
Ronald Pinto Carreteiro
O que tem caracterizado o processo de mudança
na economia e na sociedade nesta virada de milênio é
a busca da auto-realização como estratégia
de afirmação do cidadão, face aos inúmeros
desafios e oportunidades que lhes são impostos por um
cenário cambiante e de mudanças cada vez mais
rápidas. O professor Waldimir Pirró e Longo, da
FINEP, mencionou que "é como se o mundo caminhasse
em uma esteira rolante e para nós o acompanharmos, devemos
despender no mínimo certa energia".
Peter Drucker, em 1986, cunhou o termo entrepreneurship para expressar o novo
comportamento dos agentes econômicos, em função
de uma economia e de uma organização empreendedora.
Mais adiante abordaremos esse assunto novamente.
O que se observa dos últimos 50 anos,
é que as relações de emprego estão
mudando, bem como as qualificações para o trabalho,
afetando todos os países. Caminha-se para não
se ter mais profissões, mas sim um conjunto de habilidades,
que devem ser permanentemente atualizadas e conciliadas com
as mudanças e inovações.
A grande questão hoje da
sociedade de informação é o da criação
de trabalho e de negócios para atender a necessidade
de ocupação de cada cidadão, a fim de que
ele possa vivenciar o seu projeto de sustentação
de vida. E a criação de empregos e trabalho envolve
políticas de governo para áreas e setores que
exigem contigentes de mão-de-obra, tais como:
-
agricultura;
-
agro-industriais;
-
industriais de consumo e construção
naval;
-
energias alternativas (biomassa);
-
atividades de reciclagem;
-
atividades de conservação
e limpeza;
-
desenvolvimento de comunidades
de negócios (vilas e regiões);
-
serviços de transporte;
-
serviços socioculturais,
de lazer e entretenimento;
-
construção civil,
de estradas e de construção pesada.
Obter sucesso profissional hoje
significa: ter um emprego ou ter um negócio - que possa
sustentar o indivíduo e sua família. Não
basta ter formação acadêmica. As escolas
e as Universidades devem pensar sobre este grande desafio e
sair da atitude passiva, espectadora. Algumas profissões
mudaram e outras estão mudando. E outras acabaram. Hoje
o indivíduo é responsável pela sua empregabilidade
e ele deve, desde jovem assumir esta responsabilidade por seu
futuro, preparando-se para empreender.
Estamos em uma conjuntura que
cresce a produção sem emprego, - growth
jobless - grande parte influenciado pelo paradigma
do desenvolvimento científico/tecnológico, que
atua como o principal instrumento de expansão, pela inovação
ou melhoria contínua de produtos e processos, porém
sem agregar novos empregos, mas, reduzindo custos e contribuindo
para a qualidade e produtividade.
Segundo a OIT- Organização
Internacional do Trabalho, são 800 milhões de
desempregados em todo o mundo e grandes contingentes nos países
industrializados. A renda mundial cresceu 7 vezes nestes últimos
50 anos, mas a sua distribuição não beneficiou
de forma justa as diferentes classes sociais. Basta verificar
que 1% das famílias mais ricas do mundo detêm cerca
de 45% da riqueza mundial.
No Brasil, nas décadas
de 60 e 70 em grande crescimento, época do "milagre
brasileiro", a cada ponto percentual de aumento do PIB
significavam um aumento de 0,40% no nível de emprego.
E hoje, na década de 90, essa relação caiu
para 0,12%.
Ainda paira sobre a questão
do emprego, as previsões de Jeremy Rifkin, em seu livro
"Fim dos Empregos" (1996): "Mais de 75% da força
de trabalho na maior parte das nações industrializadas
estão desempenhando funções que podem ser
automatizadas, robotizadas ou terceirizadas."
Só nos EUA isto significa
90 milhões de empregos de uma força de trabalho
na ordem de 130 milhões de pessoas, cujos empregos estarão
fortemente ameaçados nas primeiras décadas do
milênio.
No Brasil, a ampliação
do desemprego tem como causas, os seguintes fatores:
1- a abertura econômica,
associada ao cardápio econômico neoliberal ditado
pelo FMI e Banco Mundial, ou seja:
2- a reestruturação
produtiva e as privatizações;
3- a inserção da
economia brasileira no cenário internacional, agravada,
uma vez que isto foi feito sem um período de transição
entre um sistema econômico fechado, protegido por fortes
políticas públicas, para uma economia aberta e
submetida à competição internacional.
A lógica do processo de
reestruturação tem como foco a redução
dos custos, a adoção de novas tecnologias, a busca
de processos poupadores de mão-de-obra e a terceirização
de tarefas e serviços que não estejam vinculados
à atividade principal das empresas - core business. Somente
no período 1990/95, cerca de 180 mil funcionários
foram demitidos de 25 das grandes empresas brasileiras que reduziram
os seus quadros de pessoal, sendo a maioria funcionários
de nível gerencial e trabalhadores especializados.
Para Luiz Kaufmann (1991) em seu
livro "Passaporte para o ano 2000", afirma: "O
passaporte das organizações para o próximo
milênio será a capacidade empreendedora".
Voltando, então, ao Peter
Drucker, surge o conceito de economia empreendedora como aquela
que reordena as relações entre os agentes econômicos,
ou sejam: a busca do emprego estável em uma grande empresa
e ênfase na ação coletiva e não individual.
Em seu livro "Inovação e Espirito Empreendedor"
caracteriza a economia empreendedora, com base e ênfase
nos seguintes fatores:
-
surgimento de novos setores
ou ramos de negócio propiciados pela ciência
e tecnologia;
-
a busca de pequenos negócios
como auto realização;
-
a inovação como
prática permanente para o atendimento de necessidades,
o aproveitamento de oportunidades e de nichos de mercado.
Destaca também as seguintes
linhas de ação típicas de uma organização
empreendedora:
-
receptiva à inovação;
-
predisposta a analisar a mudança
como oportunidade e não como ameaça;
-
avaliação permanente
de seu desempenho, através de indicadores de competitividade;
-
política de recursos
humanos voltada para resultados- a parceria capital/trabalho;
-
empregados empreendedores,
em aprendizado contínuo.
Peter Drucker (1986), define também
o comportamento típico do empreendedor: "o empreendedor
vê a mudança como norma e a explora como sendo
uma oportunidade".
No Brasil, a busca da auto-realização,
através da criação do próprio negócio,
começou a influenciar os meios acadêmico em meados
da década de 80. Vejamos alguns momentos deste crescente
interesse.
1- Em 1986, a pesquisa "o
Sonho Brasileiro" (Saldiva e Associados) detectou ser a
criação do próprio negócio o principal
anseio do público pesquisado.
2- Neste período, a Escola
de Administração de Empresas da Fundação
Getúlio Vargas e a Faculdade de Economia, Administração
e Contabilidade da Universidade de São Paulo iniciaram
a oferta de serviços destinados à criação
de negócios, em cursos de graduação e pós-graduação
conforme livro organizado por Silvo Aparecido e Heitor Pereira
em parceria com o SEBRAE-SP intitulado: "Criando seu Próprio
Negócio".
3- Em 1989, lançamento
do livro "O Empreendedor", de autoria de Ronald Degen
e Alvaro Mello, é lançado pela Editora Mc Graw-Hill.
Heitor José Pereira (1995),
em sua tese de doutorado "Novos Modelos de Gestão",
configura o empreendedorismo como um dos modelos de gestão
empresarial que se destaca neste período de emergência
de novos paradigmas.
Pesquisa efetuada, em 1997, pela
Standard, Ogilvy & Mather, constata o anseio e disposição
dos brasileiros em criar negócio próprio. O tema
da pesquisa foi "objetos de desejo do brasileiro".
A pesquisa apurou que, em primeiro lugar, é "dar
mais conforto à família" e, em segundo lugar,
"desenvolver negócio próprio". Em outro
momento da pesquisa, tenta-se captar o sonho do brasileiro de
realização profissional, sendo que 51% dos brasileiros
consideram mais atrativos "ter um negócio próprio"
do que "ter um bom emprego" (13%) e 10% desejam ser
profissionais liberais.
Há, portanto, uma conjunção
de fatores que concorrem para que se acentue o sonho brasileiro
em ter seu próprio negócio.
No que diz respeito à formação
de empreendedores, podem ser destacadas as seguintes experiências:
Internacionais:
-
Nos EUA: Babson College -
mais importante centro de ensino e pesquisa nesta área;
-
No Canadá: York Business
School - York University (Prof. Rein Peterson) e Calgary
University (associada à Babson);
-
Na Inglaterra: London Business
School;
-
Na Espanha: ESADE - Escuela
Superior de Administración y Dirección de
Empresas (associada à EAESP/FGV).
Brasileiras:
-
Escola de Administração
de Empresas da Fundação Getúlio Vargas
;
-
Programa EMPRETEC/SEBRAE (recursos
da ONU para 40 países);
-
Confederação
Nacional da Indústria/Instituto Evaldo Lodi - "Programa
Pegasus";
-
Universidade São Paulo/Fundação
Instituto de Administração - FIA;
-
Universidade do Ceará;
-
Fundação Dom
Cabral (BH - MG) - formação de sucessos;
-
Universidade Federal de Minas
Gerais;
-
Pontifícia Universidade
Católica do Paraná - através da UNIPEN;
-
Pontifícia Universidade
Católica do Rio de Janeiro;
-
Universidade Federal de Santa
Catarina - Programa ENE- Escola de Novos Empreendedores;
-
Instituto Franchising;
-
SEBRAE- Como iniciar seu próprio
negócio;
-
CNPq - Programa Softex 2000;
-
Universidade Católica
de Brasília;
-
Ação desenvolvida
pela ANPROTEC - Associação Nacional de Entidades
Promotoras de Empreendimentos de Tecnologias Avançadas;
-
Universidade Salgado de Oliveira
- Escola de Negócios.
O empreendedorismo evidencia-se
de forma inequívoca como uma vertente do pensamento econômico
e da ciência da administração. E muitas
Faculdades de Economia e Administração sequer
conhecem o tema ou mesmo o discute em salas de aula.
O empreendedorismo compreende
habilidades e principalmente comportamento, envolvendo aspectos
multidisciplinares, o que causa embaraços para as Universidades
conservadoras e "departamentalizadas".
De um modo geral, nossas Universidades
não estão preparadas para esta área temática,
a começar pela sua própria gestão e pelos
professores e pesquisadores que, em grande maioria, são
avessos aos instrumentos pedagógicos modernos. E são
desses professores e pesquisadores que se espera a promoção
das mudanças mas se a sociedade esperar por suas decisões,
será tarde demais. Os docentes necessitam ser atualizados,
capacitando-os e instrumentalizando-os através de cursos
e seminários, conscientizando-os quanto a importância
do empreendedorismo em termos profissionais e como projeto de
vida, inoculando a atitude empreendedora no seio das Universidades
e Escolas do 1º e 2º grau. Trata-se de uma verdadeira
revolução.
Como fazer? Implementar uma política
de cima para baixo, em todos os municípios do País,
através da promoções de projetos de estudos
e pesquisas; do fomento aos parques tecnológicos e incubadoras
e da sensibilização e divulgação
do empreendedorismo em todos os níveis de escolaridade.
O problema do desemprego, que
marca de forma dramática a década de 90, aponta
na direção de forte exclusão de trabalhadores
do processo produtivo para girar a economia do País.
Os empresários perplexos
e desesperados em manter a competitividade e a sobrevivência
de suas empresas, vêem na demissão a forma mais
rápida de reduzir custos. E o Governo assiste tudo e
pouco faz.
Em um País de 160 milhões
de pessoas, potenciais consumidores, é tarefa urgente
descobrir novos vetores de desenvolvimento. Neste momento de
perplexidade, em que o Governo não tem um projeto para
a Nação e os atores da sociedade estão
dispersos e sem força de aglutinação, talvez
seja o momento de se implantar no país um choque de empreendedorismo,
a ser inoculada na Nação brasileira.
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