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Quais as expectativas que o profissional
pode ter em relação ao emprego?
Roberto Macedo: Eu comparo o profissional ao surfista em que
o diploma é sua prancha. No meu tempo, as ondas eram
muitas. As oportunidades são decisivas. Precisamos estimular
as ondas com a retomada do crescimento. Por outro lado, preparar
as pessoas é importante.
Como devemos nos preparar para o futuro?
Pedro Demo: O futuro está impregnado da lógica
do conhecimento. As sociedades serão intensivas em conhecimento.
Nem sempre o conhecimento vem acompanhado de mais empregos.
Isto leva a uma corrida para aprender mais, uma seletividade,
sem garantia de que vai se inserir. No cômputo geral,
deve cair a taxa de empregos nesta era de intenso conhecimento.
Como escolher uma profissão?
Roberto Macedo: A pessoa deve fazer o que gosta. Mas nem sempre
se encontra para fazer o que se gosta. O exemplo é o
poeta, não tem emprego pra ele. Ele vai fazendo outras
coisas: o Carlos Drumond era funcionário da Biblioteca
Nacional, o João Cabral de Melo Neto é diplomata.
Agora, eu acho que o jovem está tendo que escolher muito
cedo quando ingressa na universidade. Sou a favor, de se criar
um ciclo básico para que os estudantes universitários
possam ter tempo pra escolher com um pouco mais de maturidade.
O profissional que tem a melhor situação no mercado
é aquele que ao longo da vida foi se preparando para
aquilo que é o supra sumo da vida: aprender a aprender.
Ser especialista generalizante, ser bom numa área e ter
capacidade para aprender coisas nesta área e fora dela.
O exemplo bom é dos engenheiros: se adaptam com muita
facilidade em muitas áreas.
As escolas estão preparadas para
o aprender a aprender?
Pedro Demo: Isto é um problema encardido. O Brasil
nunca realmente se dedicou à tarefa de resolver esta
base, diferentemente de muitos países que engrenaram
e resolveram seus problemas. O resultado é uma escolaridade
média do trabalhador brasileiro de 4 a 5 anos, que a
rigor no mundo hoje é um analfabeto. A Argentina está
com 8, o Chile com 9, eles têm melhores chances. A pior
ponta deste problema é a do professor. Enquanto não
resolvermos o problema do professor, nunca vamos resolver o
problema do aluno. Se o professor não sabe aprender a
aprender, como é que eles vão ensinar. As universidades,
sobretudo na área pedagógica é muito atrasada.
Um professor que não estuda não pode ser um professor.
Estudar, principalmente no caso do professor, deve ser um direito
e uma obrigação profissional.
Acho que o Brasil tem uma estrutura de ensino
superior razoável. Mas não dá para deixar
de ver que os estudantes não estão aprendendo
nada na universidade. Eles perdem tempo e perdemos a chance
de fazer esta preparação para o futuro. O provão
mostrou uma coisa do arco da velha.
Quem é responsável pela
situação e pelas mudanças?
Pedro Demo: O Estado vem depois da cidadania. Se você
tem uma sociedade esfarrapada, o Estado também é
esfarrapado. Somente uma sociedade organizada, uma democracia
de baixo para cima resolve. Temos que batalhar muito pela cidadania
que depende muito de uma boa escola para todo mundo. E não
aquilo que mostra o relatório do BID: 10% de escolas
boas para a elite, e o resto, uma escola pobre para pobres.
Roberto Macedo: Eu vejo que o pessoal da universidade está
acomodado. Se entrar o ciclo básico, por exemplo, tem
professor que vai perder aula. Então, ninguém
quer mexer para não arriscar. Mas isto dá para
acomodar porque o professor pode ser reciclado e aprender a
dar outras matérias.
A universidade está reivindicando?
Pedro Demo: Quando as coisas não vão pela
cidadania, vão pelo mercado. Na medida que o aluno não
recebe um ensino de qualidade, ele vai questionar, mesmo porque
ele paga. Nós não temos no Brasil um ambiente
favorável para a aprendizagem. A pesquisa é o
melhor ambiente de aprendizagem. A pesquisa como capacidade
de aprender. O Brasil continua fascinado pela aula. Tem ainda
boa aula, mas não se pode mais defender que o grande
trunfo seja a aula.
O saber pensar passa por três coisas:
filosofia, linguagem e matemática. Antes de ser médico,
antes de ser engenheiro, antes de qualquer especialização,
precisa aprender estas três coisas. Por que os engenheiros
lêem o Mundo de Sofia? Filosofia é saber pensar,
saber argumentar, questionar o conhecimento. Saber argumentar,
não dizer besteira, diz as coisas adequadamente. Isto
é saber pensar. A grande característica do conhecimento
pós moderno e questionar a si mesmo. Por isto, é
tão criativo. A universidade não faz isto, ela
tem um projeto de renovação dos outros.
As empresas têm medo deste profissional
criativo?
Roberto Macedo: Acho que não. A mentalidade está
mudando muito. Hoje há muito mais o trabalho em equipe.
Aquele que questiona e que apresenta soluções
é premiado.
Como a pessoa aprende a ser criativa?
Pedro Demo: Depende muito do ambiente. Depende também
da genética. Mas o que temos influência é
sobre o ambiente educativo: boa escola, estudar, aprender a
estudar. Os mundos eletrônicos talvez possam atrapalhar
mas também podem ajudar. É fundamental aprender
a elaborar: digerir, passar a idéia de fora para dentro,
não decorar. É o saber pensar que vem de árduo
esforço. Aprender é esforço duro. É
claro que é importante que haja prazer. Mas é
preciso aprender também o que não dá prazer.
Existe uma polêmica em torno da disciplina. Ninguém
aprende sem disciplina, mas aprender é no fundo um ato
de indisciplina.
As empresas têm responsabilidade
de investir na criatividade
dos seus funcionários?
Roberto Macedo: As empresas querem criatividade que dê
retorno direto para elas. Educação é o
tipo da coisa que o mercado não resolve. Não se
pode deixar nem por conta da empresa nem da família a
responsabilidae pela educação.

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