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Caravelas ao mar
Marcelo Marques Galvão
Era uma vez, em um reino
distante, um vassalo comum, que sempre fora reforçado
pelos bons serviços prestados.
Era uma vez, em um reino distante, um rei que
nunca precisou fazer nada porque os vales verdejantes, os coletores,
o exército e o clero sempre funcionaram regularmente.
Nesse reino, o rei não era soberano,
mas o vassalo era servil.
Certo dia, por causa de problemas sociais, políticos,
tecnológicos, ecológicos e de subsistência,
o rei ficou tão apavorado que ordenou ao vassalo que
entrasse em um navio e conquistasse novos reinos.
- Senhor, eu sou um homem do povo!
- Não, você vive aqui no palácio.
- Mas, existem generais, existem padres que
podem ajudar a colonizar, eu prefiro servir.
- Não se apavore, os povos desse reino
que você vai conquistar saberão te obedecer, eu
não precisei fazer nada para que você me servisse.
- É... mas
- Mas você não tem ambição?
O que você prefere, que eu vá conquistar novos
reinos? Levantem as bandeiras, os mastros e uma cruz. Alarguem
fronteiras, descubram um novo continente, iniciem uma nova civilização.
Enquanto as descobertas estavam no mundo físico,
o mundo era dos fortes e a expectativa de entrar para o exército
ou para o seminário garantia a sensação
de dever cumprido e de sucesso obtido pela inserção
nos círculos do poder.
Com a mudança dos tempos, o emprego nas
grandes empresas passou a ser a possibilidade de estabilidade
e o alvo da missão cumprida. A busca da previsibilidade
como forma de dominar o destino. Como se fosse um fardo ter
que decidir pela vida e ter que lidar com cada momento de decisão.
Dessa forma, mesmo que fazendo o discurso da vítima,
havia conforto.
Sem dúvida as pessoas procuram um mestre
que lhes diga o caminho, e esse caminho só pode ser para
dentro de si. Vassalo medroso jogado na guerra, sem nunca ter
entendido sua existência. Assim não ocorre a mudança
e a transição sequer se inicia, pois os mitos
não foram substituídos.
Hoje em dia não se discute o continente
distante. Via diversos nomes e bandeiras, sabe-se que o reino
está ameaçado. Fala-se de um novo mundo, mas não
existe colonizador.
Cada um de nós deve iniciar o processo
de colonização de si mesmo. Não foi o indivíduo
que saiu de casa para conquistar novos reinos. O indivíduo
foi informado que deve conquistar.
Para conquistar precisaremos combater os inimigos
usurpadores. Quem são eles que nos confundem e exercem
o papel duplo de libertar e punir, sendo possível classificá-lo
em uma categoria, de aliado ou inimigo.
A transição é difícil,
pois o antigo rei nada fez para preparar seus antigos súditos
em pessoas autônomas, mas também não é
papel dele. Se o homem não for capaz de ficar na solidão
do conquistador e em contato profundo consigo, para entender
sua nova situação, ele não conseguirá
se libertar das antigas instituições nem de visualizar
o novo.
Faz sentido as constantes buscas de uma nova
espiritualidade, não de uma religião. Faz sentido
os avanços da ciência e da física quântica.
Sem dúvida as pessoas procuram um mestre que lhes diga
o caminho, e esse caminho só pode ser para dentro de
si, caso contrário resultará em um novo modismo
que em vez de iluminar nosso caminho, alimentará nossos
medos e doenças.
Cada um precisa substituir os mitos, estabelecer
novos ritos, encontrar novos símbolos, e isso não
se faz em cima do conhecimento e dos processos aprendidos e
dominados. Precisa-se lidar com o inédito, mas existem
vícios que remetem sempre aos mesmos erros.
Então o problema é bem maior.
Não se trata somente de descobrir e seguir a nossa essência
(inteligência, criatividade, energia ou espiritualidade)
e confiar na capacidade de lidar com o novo (inteligência
emocional). A dificuldade é mais básica, tratamos
de vícios e para tanto devemos lidar com a dependência
física (a desconhecida inteligência orgânica).
Sem isso a mudança não ocorre
e voltamos sempre ao mesmo ponto, pois mudam-se os discursos,
mas permanecem os vícios. E vício tratado com
repressão causa outros vícios. Só é
possível se libertar pelo amor a si próprio e
pelo aumento de consciência.
Mais uma vez o trabalho é individual,
mas as empresas (como substitutas dos conventos) podem ajudar
e os gerentes (como alternativa aos generais) podem direcionar
as conquistas.
Bem-vindos ao novo processo civilizatório.

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