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O profissional do futuro
João Antônio Zuffo
Deve-se utilizar ao máximo as facilidades
de comunicação existentes no esforço de
atualização dos profissionais no tipo de sociedade
imposto pela Infoera. Antecipando o futuro, a educação
continuada deverá, em breve, ser norma na vida profissional,
quer através de cursos virtuais específicos, quer
através de cursos do tipo "bem na hora" (Just in Time) e de escolas e universidades
virtuais. (1-17)
Outro esforço significativo deverá
ser realizado no controle da qualidade de todos estabelecimentos
de ensino, sobretudo das escolas técnicas e de Engenharia,
não só através de exames de fim de curso,
como também através da formação
de bancos de dados em tempo real do tipo cumulativo, tal qual
ocorre nas declarações anuais de Imposto de Renda.
Estes bancos de dados devem permitir o controle da classificação
em termos de qualidade e de monitoramento contínuo destas
instituições.
Tal como a maior parte dos serviços no
setor terciário, também serão implementadas
escolas e universidades, onde os alunos desenvolverão
a maioria de suas atividades no próprio lar, utilizando
intensivamente as redes de comunicação de dados
para terem acesso a professores, bibliotecas virtuais e mesmo
laboratórios virtuais. Este tipo de ensino já
está sendo implantado em larga escala no exterior, e
infelizmente, no Brasil tem sido muito pouco o esforço
para o seu desenvolvimento e implantação. Hoje
a aculturação permeia o meio social e a destruição
de valores culturais nacionais já é significativa.
Essa destruição tornar-se-á total e irreversível
se nosso ensino for majoritariamente gerado no exterior.
Em face ao desafio do desenvolvimento local
de uma cultura profunda em Ciência e em Tecnologia, em
face da necessidade de preservação de nosso acervo
cultural nas Artes e Humanidades e, finalmente, face à
atuação profissional em tempo real, que características
deverá apresentar o profissional técnico e o próprio
engenheiro do futuro?
Num ambiente, onde a mudança tecnológica
é a regra, é necessário buscar algo sólido
onde ancorar os conhecimentos do profissional do futuro e, ao
mesmo tempo, desenvolver-lhe uma enorme capacidade de compreender
e adaptar-se às novas situações. Tudo isso
aponta para uma formação básica humanística,
científica e tecnológica muito sólida,
constituída, por exemplo, de disciplinas nos tópicos
fundamentais indicados no Quadro 1.
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Engenheiro Do Futuro
Ênfase
-
Mecânica
-
Eletrodinâmica
-
Óptica
Geométrica e Física
-
Fluídica
-
Comunicação
visual e expressionismo
-
Computação,
elementos de software e telemática e hardware
- Redes de Comunicação
-
Matemática
Operacional
-
Computação
Visual e Gráfica
-
Artes
e Humanidades
-
Economia/Produtividade
Ensino Especializado Virtual
Just
in Time
Educação Continuada
Quadro 1
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Deve-se buscar na formação do
engenheiro do futuro um embasamento de conhecimentos básicos
muito sólidos, de modo a capacitá-lo a enfrentar
constantes mutações tecnológicas. Sugerimos,
a título de discussão inicial, alguns tópicos
que podem vir a ser fundamentais na atuação do
engenheiro do futuro.
Esta formação básica sólida,
do profissional técnico e do engenheiro, visaria sua
adaptação para uma evolução tecnológica
muito rápida e sua capacitação para absorver
sem dificuldades maiores, os cursos especializados virtuais
do tipo Just in
Time, abarcando
diferentes níveis de conhecimento. Isto os capacitaria
também a ter acesso aos Laboratórios Virtuais
mundiais, para seus projetos e desenvolvimentos.
Considerando o caso particular das engenharias;
ao propormos um elenco de tópicos fundamentais, como
os listados no Quadro 1, não pretendemos com isso propor
uma solução completa e definitiva para a formação
básica do técnico ou do engenheiro, mas apenas
dar uma idéia ao leitor do sentido em que estamos pensando
quando nos referimos a uma formação básica
estável e muito sólida.
Enfatizamos que a educação continuada
deve se tornar a regra durante toda vida profissional. A reciclagem
dos profissionais técnicos e dos engenheiros já
formados, além de lhes fornecer informações
Just in Time, deve buscar também completar sua formação
básica, de modo a adaptá-los a um ambiente onde
a mudança tecnológica contínua será
a regra e a ameaça de rápida obsolescência
profissional será constante.
A verdade é que todas as áreas
de atividades profissionais serão em maior ou menor grau
afetadas pela Infoera (Quadros 2 e 3). Urge adaptá-las
às novas situações que se apresentarão.
Algumas novas profissões estão se cristalizando
e solidificando enquanto que outras irão se tornar absoletas
a curto prazo. No início do ano de 1997, por exemplo,
recebemos a notícia de fechamento na cidade de São
Paulo de uma das mais tradicionais escolas de datilografia do
Brasil. Os computadores pessoais tornaram as máquinas
de escrever obsoletas e junto com elas seus profissionais e
usuários. Em outras áreas, a necessidade de profissionais
tem caído verticalmente, como é o caso de desenhistas
profissionais, secretárias e auxiliares de escritório.
Fundamentalmente, necessita-se de uma reavaliação
profunda de todas as profissões, tendo em vista nessa
avaliação, inclusive, as conseqüências
que poderão advir de futuros aperfeiçoamentos
tecnológicos.
Na verdade já está ocorrendo,
e ocorrerá ainda mais num futuro próximo, digamos
num horizonte de 10 anos, uma intensa automação
de escritórios, em virtude do baixo custo de equipamentos
de informática destinados a este fim. A introdução
maciça da comunicação homem/máquina
pela voz, sem dúvida, contribuirá decisivamente
para a aceleração desta automação.
Em pouco tempo, mesmo os microcomputadores das
pessoas físicas estarão na sua maior parte conectados
a redes sofisticadas de comunicação de dados.
Além do oferecimento de serviços profissionais
e escritórios virtuais, teremos, através das redes,
a generalização de serviços, por exemplo,
de atendimento bancário, operações de compra
e venda através de lojas virtuais, ordens de pagamento
e transferência de recursos etc..
|
Área de atuação
profissional
-
Todas
as profissões deverão ser reavaliadas
-
Haverá
intensa automação de escritórios
nos próximos 10 anos
-
A conexão
em redes também automatizará compras,
vendas, operações bancárias,
etc.
-
A terceirização
em nível individual e o trabalho no lar
serão comuns.
-
Generalização
dos Laboratórios Virtuais e Universidades
Virtuais
-
Aperfeiçoamento
Just in Time
-
Acesso
às informações de forma instantânea
a nível mundial
-
O homework será
a regra com intensa utilização de
teleconferências
-
Deve-se
esperar grande desemprego nas áreas terciárias
da economia
-
Grande
desenvolvimento de microempresas dedicadas a serviços
-
Crescente
importância das artes das humanidades e
da criatividade
Os custos de automação
de escritórios são muito menores, e as
vantagens da automação muito maiores do
que na área industrial.
Quadro 2
|
Todas as áreas de atuação profissional
serão profundamente afetadas pela Infoera. Existirão
programas (sofwares) específicos de apoio profissional,
nas áreas de Engenharia, Direito, Medicina, Arquitetura
e mesmo em Artes e Humanidades. Os escritórios serão
intensivamente automatizados, com a progressiva queda de custo
dos produtos de Informática e o uso da comunicação
homem/máquina pela voz. A conexão em redes internacionais
de comunicação de dados, além de aumentar
a potência informacional das máquinas locais, popularizará
operações comerciais e financeiras através
de redes, mesmo internacionalmente. A facilidade para a comunicação
favorecerá também grandemente a terceirização
em nível individual e o trabalho do lar.
A Infoera
|
Área Profissional
Sistemas de auxílio ao
desempenho profissional
Sintomas reconhecidos diretamente
dos instrumentos;
Sistemas I.A. especialistas comparando com outros casos
em nível regional e mundial;
Relatório e comunicação pela voz;
Banco de dados sobre todos os conhecimentos em Medicina.
Ligação em rede mundial;
Telemonitoriamento de pacientes;
-
Projetos
de Engenharia Auxiliados por Computador
-
Arquitetura
Auxiliada por Computador
-
Direito
Auxiliado por Computador
Localização automática
de pareceres e casos relacionados,
Sugestões de Sistemas Especialistas para as providências
que devem ser tomadas dentro de determinado processo
Análise de precedentes em nível nacional
e internacional
Síntese de pareceres calçados em Base
de Conhecimentos de Sistemas Especialistas.
Estes sistemas especialistas estarão calcados
no conhecimento e experiências dos maiores juristas
Quadro 3
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Todos os setores da atividade humana disporão de sistemas
informáticos de apoio ao seu trabalho profissional.
As redes de comunicação de dados
possibilitarão também o crescimento rápido
do trabalho no lar, num processo de terceirização
individual de trabalho. Dentro desta perspectiva, deverá
ocorrer um crescimento significativo das firmas individuais
e do trabalho autônomo.
De qualquer modo, é importante considerar
que os custos de automação de escritórios,
e de modo geral de serviços no setor terciário
da economia, são muito menores do que nos demais setores
e as vantagens da automação muito maiores.
As áreas profissionais liberais serão
particularmente afetadas pela Infoera ( Quadro 4). Na área
médica, por exemplo, existirão sofisticados sistemas
de auxílio ao desempenho profissional. Estes sistemas
poderão estar conectados em rede mundial e permitirão
facilidades de teleconferências e permuta de imagens médicas
entre localidades distantes. Sistemas deste tipo poderão
monitorar diretamente sensores remotos colocados em pacientes,
e desta forma acompanhar quase que continuamente a evolução
do seu estado clínico (18-27).
O desenvolvimento de sensores de maior resolução,
associados a sistemas mais sofisticados de tratamento de imagens,
permitirão que os próprios instrumentos, também
conectados em rede, destaquem e alertem o médico para
alguns sintomas que podem ser cruciais. Incorporando Sistemas
Especialistas em Inteligência Artificial é possível
analisar diagnósticos, comparando o caso presente com
outros casos em âmbito nacional e internacional, e daí
identificar o tipo de determinada doença e prescrever
os tratamentos mais indicados para ela. (28-44). Em sistemas desse tipo, serão possíveis
relatório e memorandos utilizando comunicações
com máquina pela voz.
Estando interconectados em rede, estes sistemas
terão acesso a Banco de Dados em âmbito mundial
sobre todos os eventos e conhecimentos em medicina. ( Quadro
3)
Os projetos de Engenharia auxiliados por computador
( CAD) já são uma realidade há muitos anos.
Setores especializados da Engenharia como, por exemplo, o de
projetos de circuitos integrados ou de projetos de Engenharia
Mecânica, Aeronáutica ou de Engenharia Naval dispõem
de estações de trabalho e logicionarias ( softwares
) extremamente sofisticadas, que permitem projetos complexos
e simulações muito precisas e rápidas.
Na Arquitetura e na Engenharia Civil já
existem sistemas de logicionarias que permitem o projeto completo
de edifícios e outras obras de arte prevendo detalhes
como iluminação interna, conforto térmico,
vibrações e efeitos de fatores externos, como
ventos e chuvas, antes inviáveis de se prever num projeto
comum.
É possível também sistemas
profissionais de auxílio ao Direito. Sistemas deste tipo
poderiam ter acesso a banco de dados sobre processos, localizando
decisões e orientando o causídico em suas defesas.
Poderiam também conter sistemas especialistas de inteligência
artificial que contivessem pareceres e decisões judiciais
importantes. Além de promoverem a geração
automática de petições e recursos, estes
sistemas poderão prover também teleconferências
entre os causídicos, e mesmo permitir através
de sistemas especialistas a discussão de pareceres com
juristas virtuais, criados a partir de bases de conhecimentos
obtidas dos maiores juristas humanos. Enfim, é possível
delinear sistemas profissionais para muitas outras profissões,
dependendo apenas da existência de demanda suficiente
para o seu desenvolvimento.
Retornando ao caso das profissões técnicas
e das engenharias, torna-se fundamental repensar os cursos técnicos
básicos e médios, além dos cursos de graduação,
no sentido de torná-los mais eficientes e produtivos,
buscando a formação rápida de profissionais
mais flexíveis e adaptáveis às novas situações.
Existiu até pouco tempo atrás,
uma tendência de excessiva especialização
das áreas técnicas e de Engenharia exigida pela
própria característica da era Pós-Industrial.
Esta excessiva proliferação de especializações
produz técnicos e engenheiros com conhecimentos profundos
dentro de uma estreita área do saber humano. Estes engenheiros
e técnicos acabam se mostrando pouco adaptáveis
às novas situações e podem rapidamente
tornar-se obsoletos. A tendência da excessiva especialização
em qualquer área do conhecimento será desastrosa
na Infoera, onde a mudança permanente é a regra
e a criatividade o tópico mais importante na avaliação
profissional.
Nas condições que existirão
na Infoera, será extremamente recomendável formar
técnicos e engenheiros básicos, tal como hoje
são formados os físicos, os médicos e os
advogados, e especializá-los de acordo com as necessidades
que advirão do próprio exercício profissional.
Para isso, devemos providenciar não só a redução
drástica do número de especializações
em Engenharia, como também, exercer um controle muito
efetivo da qualidade dos técnicos e dos engenheiros que
serão formados. Estes técnicos e engenheiros deverão
ter uma grande quantidade de aulas práticas e aulas de
laboratório, além de homeworks intensivos, utilizando
exatamente as facilidades proporcionada pelas redes de comunicação
de dados.
Deverão inclusive ser incentivados, durante
o curso de formação, a cursar algumas disciplinas
virtuais do tipo Just in Time, utilizando seus computadores domésticos.
Reafirmamos que a educação continuada
e a reciclagem serão partes inseparáveis da vida
profissional futura, e não a exceção como
ocorre hoje, tornando-se parte integrante do sistema de aumento
da eficiência da produção industrial de
uma empresa. Por isso, a educação continuada e
os cursos Just in Time devem obrigatoriamente ser previstos
nos futuros ambientes de trabalho. No Quadro 4 destacamos resumidamente
estas recomendações.
Colocados em paralelo com os demais cursos superiores
na área de exatas, os cursos de Engenharia podem, de
certa forma, ser considerados ineficientes, no aspecto de transmissão
do conhecimentos e absorção destes pelos alunos.
De fato, os nossos cursos de Engenharia, normalmente
exigem cinco anos, em tempo praticamente integral. Todavia,
no mercado de trabalho, a não ser pelas garantias burocráticas
fornecidas pelo CREA, de modo geral, os profissionais não
apresentam aparentemente maior competência profissional
do que, por exemplo, os bacharéis formados em Arquitetura,
Química, Física, Ciência da Computação
ou mesmo Matemática. Estes últimos, todavia, são
formados em cursos de duração de 4 ou 5 anos em
tempo parcial, apresentando um número de horas de aulas,
em alguns casos, significativamente inferiores a metade do número
de horas das aulas normalmente ministradas em Engenharia. Fatos
como estes devem ser repensados e analisados, para determinar
com maior exatidão a causa desta baixa eficiência
na absorção e uso de conhecimentos.
De início apresentamos algumas sugestões
que poderiam eventualmente melhorar a eficiência de ensino
de Engenharia:
a)redução do número de
anos letivos para quatro, fornecendo neste período predominantemente
disciplinas básicas;
b)fornecimento aos alunos a opção
de estudo mais especializado nos dois anos seguintes, após
a formatura básica, concedendo, automaticamente, o título
de mestre aos que completarem estes dois anos.
Lamentavelmente, nossos CREAs e CONFEA não
têm atribuído funções legais significativas
e reconhecido na sua verdadeira dimensão o valor dos
cursos de pós-graduação, embora exista
no país quase uma dezena de milhares de engenheiros portanto
o título de mestre ou doutor.
Sob outro aspecto, muitas pessoas encaram a
pós-graduação como um sistema de ensino
apenas para a formação de professores na Universidade.
Não poderia haver erro maior. A pós graduação
deve também ser encarada como um meio eficiente de formação
de pesquisadores que irão atender as necessidades de
desenvolvimento técnico-científico nas empresas
afim de criar produtos altamente competitivos.
Sem dúvida, é muito urgente o
reconhecimento oficial da competência dos portadores desses
títulos, reservando no mercado o lugar que merecem.
Só dessa forma, nossos técnicos
e engenheiros serão incentivados a prosseguir seus estudos
mesmo depois de formados e deste modo estarão mais aptos
a enfrentar o desafio da Infoera sem se tornar obsoletos antes
mesmo de graduar.
|
Recomendações
Sugestões de modificação
-
Redução
do número de anos da Engenharia. Básico:
quatro anos com alguma especialização.
-
Incorporação
de dois anos de mestrado para Engenharia plena
-
Repensar
as atribuições dos engenheiros tornando-os
menos especializados, e estabelecendo atribuições
significativas que correspondam às pós-graduações
e cursos de especialização reconhecidos.
-
Os
quatro primeiros anos devem ter predominantemente
disciplinas básicas.
-
Os
dois anos subsequentes podem ter disciplinas de
especialização.
-
Reconhecimentos
e atribuições de funções
a pós-graduação pelo CREA.
Quadro 4
|
Recomendações e sugestões
para a área de Engenharia em face ao desafio da Infoera.
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