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O ensino
de engenharia a caminho da irrelevância
Felipe M.
Pait
Existe um
descompasso entre os princípios que norteiam o ensino
de engenharia e as oportunidades profissionais que se abrem
aos engenheiros. Os estudantes com suas expectativas, a
sociedade com suas necessidades, ficam meio perdidos por
aí entre ambos.
Os currículos dos cursos
de engenharia, na Escola Politécnica da USP como
nas demais instituições brasileiras, vêem
o estudante de engenharia como um indivíduo capaz
de absorver conhecimentos prontos para depois ser capaz
de aplicá-los fazendo projetos e tocando obras. É
este também o ponto de vista dos CREAs, que concedem
habilitação profissional ao indivíduo
que tenha cursado um determinado conjunto de disciplinas
--- e portanto presumivelmente adquirido os conhecimentos
necessários para dedicar-se à prática
da engenharia sem pôr em risco seus concidadãos.
Por isso os currículos são iguais para todos
os alunos dentro de cada especialidade, com poucas matérias
optativas e um grande número de disciplinas, quase
todas com conteúdo técnico.
Este ponto de vista talvez tenha
servido numa época em que o engenheiro era visto
como um instrumento da substituição de importações,
um projetista que deveria levar a indústria brasileira
à igualdade com o que existia ``lá fora.''
Certamente não serve mais numa época de mudanças
cada vez mais rápidas que tornam impossível
predizer de onde virão as tecnologias relevantes.
O profissional que se forma engenheiro hoje deve ter espírito
crítico, formação multidisciplinar,
e capacidade de fazer trabalho inovador em equipe --- qualidades
estas que não são enfatizadas pelos currículos
atuais.
A contradição entre
o mundo faz-de-conta para o qual os cursos de engenharia
preparam seus alunos e as exigências do mercado de
trabalho cria grande frustração entre os alunos
de graduação, que assistem aulas pouco motivados
--- quando assistem --- e saem frustrados pela impossibilidade
de aplicar toda a massa de conhecimentos que tanto suaram
para adquirir. Esses estudantes absorvem apenas uma fração
do que lhes é posto à disposição,
e deixam de desenvolver outras habilidades que lhes tornariam
mais aptos para fazerem contribuições à
sociedade. É um desperdício dos recursos que
a sociedade investe na universidade.
Esse não é um assunto
interno da universidade? Porque interessa à sociedade
toda?
Em primeiro lugar, porque é
quem paga as contas da universidade pública. Mais
importante, porque espera dos formados das melhores escolas
que não apenas ``arrumem empregos'' mas que criem
empregos. Os alunos saídos das universidades que
funcionam como referência para o país precisam
ser capazes de inovar e ter uma visão ampla e crítica
de suas áreas de atuação. Não
apenas serem depositários de técnicas consagradas.
Em recente congresso internacional
promovido pelo Institute of Electrical and Electronics Engineers
tomei parte de uma sessão de discussão sobre
o futuro da educação em engenharia, no qual
ficou patente a existência de uma preocupação
internacional com questões que podem ser sintetizadas
pelas palavras-chave: flexibilidade de currículos;
interdisciplinaridade; integração interdepartamental;
motivação; trabalho criativo e em equipe;
e eficiência. Conceitos opostos norteiam a organização
do programa na Escola Politécnica da USP: currículos
rígidos; especialização desde os primeiros
anos do curso; departamentos que evitam servir alunos que
não sejam "seus", apresentação
de teorias e informações tecnológicas
para alunos que não compreendem o contexto; e avaliação
por provas que cobram apenas o conhecimento adquirido. Ocorre
contratação de pessoal sem atendimento a demandas
do corpo discente e gasto de recursos sem correspondência
entre as disciplinas oferecidas e as oportunidades de trabalho.
Mudanças recentes nos currículos são
apenas cosméticas e nada alteram neste quadro lamentável.
O ensino de engenharia na USP e no Brasil em geral transforma-se
com lentidão e está sendo atropelado pelos
acontecimentos.
Existe uma experiência de
flexibilidade e multidisciplinaridade no ensino de graduação
na Escola Politécnica da USP: a ênfase Automação
& Controle oferecida aos estudantes de quarto e quinto
anos do curso de Engenharia de Eletricidade da Poli-USP.
O programa dá ênfase atualmente prevê,
além de um núcleo de disciplinas na área
de Automação & Controle que formam o currículo
comum para os estudantes que escolheram tal opção,
dez disciplinas optativas que podem ser cursadas entre as
oferecidas na área de Automação &
Controle, em outras áreas de engenharia elétrica,
ou em qualquer departamento ou unidade da USP. Essa experiência
de flexibilidade e multidisciplinaridade, pioneira na Escola
Politécnica, foi elogiada pela pró-reitoria
de graduação da USP e tem sido recebida com
entusiasmo pelos alunos da ênfase e pelos docentes
da área.
São mudanças limitadas
porém construtivas, discutidas com muito cuidado
pelos professores responsáveis, levando em consideração
as aspirações dos alunos da área. Procurou-se
reduzir a carga horária de modo a permitir uma dedicação
efetiva às disciplinas cursadas, e abrir a possibilidade
para que cada estudante faça uma combinação
de disciplinas especializadas, disciplinas em outras áreas
da engenharia, e disciplinas fora de engenharia, de acordo
com seus interesses e aconselhado por um professor orientador.
Existem propostas semelhantes fora da Politécnica,
por exemplo os cursos de Ciências Moleculares e Jornalismo.
Infelizmente a oportunidade de ter
esta flexibilidade curricular dentro do curso de engenharia
está limitada a alguns alunos de quarto e quinto
anos da Engenharia de Eletricidade. A expansão e
mesmo a manutenção desta experiência
enfrentam obstáculos devido à inércia
e falta de interesse de burocracias acadêmicas encasteladas
nos diversos departamentos da Escola Politécnica
e da USP, muitas vezes com a preocupação de
preservar uma situação que lhes é conveniente
e confortável.
Mantendo-se a rigidez, a especialização,
e a falta de motivação atuais, o ensino de
engenharia na USP corre o risco de ser relegado à
irrelevância.
Felipe M
Pait é professor do Departamento de Engenharia Eletrônica
da Escola Politécnica da Universidade de São
Paulo. (http://www.lac.usp.br/~pait/)
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