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Boletim 5

 

14 a 21 de Maio de 1999

O ensino de engenharia a caminho da irrelevância
Felipe M. Pait

Felipe M. PaitExiste um descompasso entre os princípios que norteiam o ensino de engenharia e as oportunidades profissionais que se abrem aos engenheiros. Os estudantes com suas expectativas, a sociedade com suas necessidades, ficam meio perdidos por aí entre ambos.

Os currículos dos cursos de engenharia, na Escola Politécnica da USP como nas demais instituições brasileiras, vêem o estudante de engenharia como um indivíduo capaz de absorver conhecimentos prontos para depois ser capaz de aplicá-los fazendo projetos e tocando obras. É este também o ponto de vista dos CREAs, que concedem habilitação profissional ao indivíduo que tenha cursado um determinado conjunto de disciplinas --- e portanto presumivelmente adquirido os conhecimentos necessários para dedicar-se à prática da engenharia sem pôr em risco seus concidadãos. Por isso os currículos são iguais para todos os alunos dentro de cada especialidade, com poucas matérias optativas e um grande número de disciplinas, quase todas com conteúdo técnico.

Este ponto de vista talvez tenha servido numa época em que o engenheiro era visto como um instrumento da substituição de importações, um projetista que deveria levar a indústria brasileira à igualdade com o que existia ``lá fora.'' Certamente não serve mais numa época de mudanças cada vez mais rápidas que tornam impossível predizer de onde virão as tecnologias relevantes. O profissional que se forma engenheiro hoje deve ter espírito crítico, formação multidisciplinar, e capacidade de fazer trabalho inovador em equipe --- qualidades estas que não são enfatizadas pelos currículos atuais.

A contradição entre o mundo faz-de-conta para o qual os cursos de engenharia preparam seus alunos e as exigências do mercado de trabalho cria grande frustração entre os alunos de graduação, que assistem aulas pouco motivados --- quando assistem --- e saem frustrados pela impossibilidade de aplicar toda a massa de conhecimentos que tanto suaram para adquirir. Esses estudantes absorvem apenas uma fração do que lhes é posto à disposição, e deixam de desenvolver outras habilidades que lhes tornariam mais aptos para fazerem contribuições à sociedade. É um desperdício dos recursos que a sociedade investe na universidade.

Esse não é um assunto interno da universidade? Porque interessa à sociedade toda?

Em primeiro lugar, porque é quem paga as contas da universidade pública. Mais importante, porque espera dos formados das melhores escolas que não apenas ``arrumem empregos'' mas que criem empregos. Os alunos saídos das universidades que funcionam como referência para o país precisam ser capazes de inovar e ter uma visão ampla e crítica de suas áreas de atuação. Não apenas serem depositários de técnicas consagradas.

Em recente congresso internacional promovido pelo Institute of Electrical and Electronics Engineers tomei parte de uma sessão de discussão sobre o futuro da educação em engenharia, no qual ficou patente a existência de uma preocupação internacional com questões que podem ser sintetizadas pelas palavras-chave: flexibilidade de currículos; interdisciplinaridade; integração interdepartamental; motivação; trabalho criativo e em equipe; e eficiência. Conceitos opostos norteiam a organização do programa na Escola Politécnica da USP: currículos rígidos; especialização desde os primeiros anos do curso; departamentos que evitam servir alunos que não sejam "seus", apresentação de teorias e informações tecnológicas para alunos que não compreendem o contexto; e avaliação por provas que cobram apenas o conhecimento adquirido. Ocorre contratação de pessoal sem atendimento a demandas do corpo discente e gasto de recursos sem correspondência entre as disciplinas oferecidas e as oportunidades de trabalho. Mudanças recentes nos currículos são apenas cosméticas e nada alteram neste quadro lamentável. O ensino de engenharia na USP e no Brasil em geral transforma-se com lentidão e está sendo atropelado pelos acontecimentos.

Existe uma experiência de flexibilidade e multidisciplinaridade no ensino de graduação na Escola Politécnica da USP: a ênfase Automação & Controle oferecida aos estudantes de quarto e quinto anos do curso de Engenharia de Eletricidade da Poli-USP. O programa dá ênfase atualmente prevê, além de um núcleo de disciplinas na área de Automação & Controle que formam o currículo comum para os estudantes que escolheram tal opção, dez disciplinas optativas que podem ser cursadas entre as oferecidas na área de Automação & Controle, em outras áreas de engenharia elétrica, ou em qualquer departamento ou unidade da USP. Essa experiência de flexibilidade e multidisciplinaridade, pioneira na Escola Politécnica, foi elogiada pela pró-reitoria de graduação da USP e tem sido recebida com entusiasmo pelos alunos da ênfase e pelos docentes da área.

São mudanças limitadas porém construtivas, discutidas com muito cuidado pelos professores responsáveis, levando em consideração as aspirações dos alunos da área. Procurou-se reduzir a carga horária de modo a permitir uma dedicação efetiva às disciplinas cursadas, e abrir a possibilidade para que cada estudante faça uma combinação de disciplinas especializadas, disciplinas em outras áreas da engenharia, e disciplinas fora de engenharia, de acordo com seus interesses e aconselhado por um professor orientador. Existem propostas semelhantes fora da Politécnica, por exemplo os cursos de Ciências Moleculares e Jornalismo.

Infelizmente a oportunidade de ter esta flexibilidade curricular dentro do curso de engenharia está limitada a alguns alunos de quarto e quinto anos da Engenharia de Eletricidade. A expansão e mesmo a manutenção desta experiência enfrentam obstáculos devido à inércia e falta de interesse de burocracias acadêmicas encasteladas nos diversos departamentos da Escola Politécnica e da USP, muitas vezes com a preocupação de preservar uma situação que lhes é conveniente e confortável.

Mantendo-se a rigidez, a especialização, e a falta de motivação atuais, o ensino de engenharia na USP corre o risco de ser relegado à irrelevância.

Felipe M Pait é professor do Departamento de Engenharia Eletrônica da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. (http://www.lac.usp.br/~pait/)

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